25 maio, 2010

Hipóteses sobre as relações: suas dificuldades e atitudes que podem torná-las mais positivas


Os conflitos e dificuldades de entendimento entre as pessoas me levaram a pensar profundamente sobre esta questão que há muito afasta os indivíduos uns dos outros por terem dificuldades em se expressar, em ouvir e sentir a si mesmo e o outro. Buscarei neste texto mostrar alguns pontos de vista particulares que poderão, por ventura, ser de proveito ou servir como estímulo a novos pensamentos e opiniões sobre o que virá a seguir. Tentarei expressar da forma mais clara e fidedigna o que penso.

Estar em contato consigo mesmo

Não ter em nível consciente aquilo que está se passando no próprio organismo pode interferir naquilo que vemos, seja em nível fisiológico como passar por intenso calor em um ambiente ou estar vivendo uma situação angustiante sentimentalmente. Existem formas de bloqueios ou impedimentos internos que impossibilitam o contato do saber e sentir o que está acontecendo internamente. Exprimir palavras como “tu és um caloteiro”, “tudo nessa vida não vale nada” ou “tomara que fulano morra”, ao mesmo tempo gesticulando bruscamente, franzindo as feições faciais e etc. podem ser indicativos de que esta pessoa está vivenciando sentimentos de raiva, cólera, ódio. Seguindo o mesmo exemplo, se esta pessoa ouve de alguém que ela está raivosa e agressiva poderá dizer: “eu não estou com raiva; você não sabe o que se passa aqui dentro. Ninguém melhor do que eu para saber o que eu sinto”, provavelmente esta pode não estar em contato com o seu mundo interno. Sensações e turbulências negadas por si , sejam por defesas ou jogos sociais, provavelmente nos mostra a idéia de incongruência (falta de contato consigo mesmo). Questões essas que influenciam diretamente na forma como nos expressamos e ouvimos o outro.

Há também a situação em que a pessoa está consciente sobre o próprio organismo seja ele físico, psíquico e a sua dinâmica, mas que ainda apresenta outra barreira: a dificuldade entre o perceber e expressar o que a outra pessoa realmente sente. Essa “impossibilidade” pode dificultar muito o próprio indivíduo e a interação com outra pessoa. Numa dada situação hipotética, Glauber está sentindo e vivendo uma situação de luto por uma perda de um ente próximo e este está em uma reunião em que a sua atenção é imprescindível. Mesmo que o seu chefe pudesse entender a situação em que Glauber se encontrava o “poupando” da reunião, o mesmo prefere negar ou lutar contra o seu próprio sentimento. Glauber tem uma chance enorme de não conseguir focar sua atenção na reunião, tendo um déficit em sua relação com o grupo, podendo aumentar a sua angústia por não querer –realmente- estar ali. Ou seja: o indivíduo que tem dificuldades em se “ouvir” tende a entrar em conflito consigo mesmo, sentindo ansiedade, angústia e aumentando a probabilidade de que as suas relações não sejam tão positivas e satisfatórias.

Ainda existe outro fator que ocorre constantemente em pessoas que têm dificuldades em ter relações saudáveis e adultas. Tentarei através do exemplo a seguir demonstrar como uma criança pode explicar o seu próprio comportamento.

Tomaz tem uma mãe muito “fechada” para as demandas emocionais que ele exprime, quase sempre negando sistematicamente coisas que podem ser agradáveis tal como tomar um sorvete ou querer um presente de natal. A mãe não se preocupa em explicar os por quês de não “saciar” estes desejos. Pelo contrário, ainda o trata com agressividade e o deixa de castigo na maioria das vezes. Por sua vez, Tomaz começa a adotar atitudes cada vez mais agressivas. Palavrões começam a ser direcionados à mãe, brigas começam a acontecer na escola e etc. Certo dia Tomaz impulsivamente quebra um vaso de flores da sua mãe. Ela aos berros pergunta o por quê do filho ter quebrado o vaso. O mesmo diz “não sei por que eu não posso fazer nada, não ganho nenhum presente e ainda fico de castigo... Por isso quebrei o vaso”.

Deixando o exemplo em stand by por um instante, trazemos exemplos de reações de pessoas tidas como adultas, responsáveis pelas próprias escolhas e comportamentos, mas que não se responsabilizam pelos seus atos. Isto se mostra claramente nestes discursos “fiz o que fiz porque tu foste ruim comigo”, “acabei estourando depois de você ter começado a briga. Eu não sou culpado. Quem começou a briga foi você!” ou até “eu não fiz nada para merecer essa sua agressividade”. Objetivamente: essas pessoas têm dificuldades em se “explicar” (este não é o termo que melhor me satisfaz), têm dificuldades em explicar a própria conduta e suas explicações como sendo suas. Vivem no “como se”. Como se o outro fosse responsável pelos meus próprios comportamentos e como se não houvesse uma liberdade de agir positivamente mesmo num contexto negativo.

Proponho um exemplo prático que julgo ser eliminador de grande parte de períodos de desentendimentos. O indivíduo não-infantil que assume para si e adota a seguintes posturas “me senti ignorado e muito magoado diante do que você fez”, “vejo que eu poderia ter dito com mais calma e de forma construtiva, ao invés de ter me exaltado”, “vejo que você machucou-me, mas sei que contribuí para que você tivesse tal atitude”. A ausência de julgamento e de acusações para justificar a própria conduta é típica daquele que procura ter relações comprometidas com um nível saudável e gratificante num relacionamento, seja ele qual for. Pula-se a fase da “guerra por razões” e vai rapidamente para a fase de compreensão, aceitação ou, pelo menos, de levantamento de hipóteses de atitudes a serem tomadas.

Empaticamente ouvir e perceber a pessoa

Partindo do pressuposto de que cada pessoa é singular e que esta vive em um processo fluído e constante, leva-me a crer que as pessoas pensam diferente de mim. Elas podem dar respostas diferentes do que as minhas em um contexto, também podem exprimir sentimentos mais próximos dos meus em um determinado momento. Porém, levar em conta estas idéias somente no nível intelectual e lógico pode nos levar a cometer equívocos que muitas vezes podem causar grandes dificuldades. Pode haver um espaço muito grande entre o campo intelectual e aquilo que nos toca afetivamente.

Acredito que quando realmente sentimos aquilo que acreditamos existir é quando podemos ser o que somos. Para não entrar em campos muito subjetivos e talvez vagos, irei me deter novamente à linha de raciocínio anterior.

Se afastar das próprias percepções, mesmo que por alguns instantes, pode ser uma aventura muito instigante, e ao mesmo tempo perigosa por talvez ter de baixar as defesas para poder entrar em contato com o outro. Saber e estar no lugar ou no posto do outro é um exercício que pode ser muito engrandecedor, porém também pode ser perigoso para a inércia interna que tende a fixar o indivíduo em um estado distante daquela a sua frente. Para tentar nomear esta dificuldade chamarei este fenômeno de “inércia organísmica”.

Ser ouvido empaticamente, ou seja, ser entendido tal como foi tentado expressar, ver e sentir que o outro está interessado e, em algum nível, também sentindo o que está sentindo internamente pode ser de imenso valor para a aproximação, entendimento e valorização da relação. O indivíduo que é ouvido empaticamente tende a se expressar mais livremente, sem receios de ser rechaçado e de ser julgado negativamente, assim o deixando mais "leve" para também mostrar os seus pontos de vista de maneira mais construtiva e menos destrutiva.

Aceitação daquilo que não é de si

Todos nós somos constituídos de idéias, valores, opiniões e outros aspectos que fazem parte da nossa cultura singular em determinado momento e contexto onde é experienciada a vida. Muitos de nós através da aprendizagem vamos nos “moldando” através -e excessivamente- do outro podendo nos constituir como apenas um produto provindo da matéria-prima do outro. Este é um ponto extremo que prejudica a relação entre os indivíduos havendo também outro extremo que, da mesma forma, atrapalha a relação.

Como foi dito anteriormente, o indivíduo fixado em si mesmo sem o “poder” de relativizar a sua visão e a sua percepção, sem tentar captar e sentir as idéias do outro também acaba gerando outra dificuldade nas relações. É gerado daí monólogos e discussões negativas sendo muitas vezes destrutivas.

Ver o que pode ser ou é diferente daquilo que somos e trazer para dentro de nós a fim de tentar compreender é o primeiro passo para aceitar o que é diferente. Equivoca-se aquele que acha que é aceitar sem filtros e apenas “engolir” aquilo que não é de si; mais do que isso, é levantar a hipótese de que algo simplesmente é diferente daquilo que temos como certo, errado, bonito, feio, agradável, desgastante. É não se fechar nos próprios julgamentos, sem colocar o outro dentro da própria idéia e ainda cobrar que o outro siga o que se quer como sendo de direito. Entendo isto como uma tentativa de prisão do outro. Vindo de um desejo egoísta e narcisista de mostrar, tentar, convencer, fechar o outro dentro da própria cultura, dentro dos próprios valores. Não é como se existisse somente o próprio ponto de vista, mas vai mais além; é não levar em conta que talvez hajam outros pontos de vista e de que outras percepções podem ser válidas e, acima de tudo, respeitadas.

Portanto, aceitar e dar valor –no sentido estrito da palavra- ao que o outro tem de diferente e expressar de forma empática os sentimentos despertados no próprio organismo, por essa audição sensível, pode ser um grande passo ou a chance de que aumente as chances de entendimento e respeito entre as pessoas.


Um comentário:

Marcelle Warth disse...

http://www.orkut.com.br/Main#AlbumZoom?uid=15779241590146910705&pid=1275760586920&aid=1275645155$pid=1275762109300

Me lembrei de ti e de uma conversa que tivemos outrora sobre ganhar flores!
(Mas só poderá ver se me add no orkut! Uma chantagem barata, eu sei! hahaha)

beijos Marcelle Warth (a esquecida, atormentada por não terv mais o seu insuportável amigo cabeludo)