17 novembro, 2010

Ler é chato ou a nossa cultura que é?


Confesso não lembrar qual obra literária e quanto tempo faz que li um livro de ficção. Escrevo bastante sobre meus pensamentos quanto à política, ética, valores, sobre autores da psicologia, filosofia, procurando trazer para o presente e transformando em algo factível. Escrevo poesia há um tempo e contos desde que procurei a disciplina de Escrita Criativa do escritor Charles Kiefer. De lá pra cá tenho me sensibilizado quanto à prática da escrita. Ler que é bom, nada; somente os contos dos colegas da Oficina de Criação Literária, a qual estou cursando. De onde vem essa minha aversão? É aversão? Creio que não. Amo escrever, gosto muito dos textos dos colegas, mas nada além disso. Ouço falar de vários escritores de contos e romances, porém, nada de procurá-los. Como ser escritor e não ler?

Mais uma vez a historinha da escola, professor, aluno e livros que nos fazem ler. Lemos Iracema, Dom Casmurro, Memórias de um sargento de milícias... Confesso que acabo de consultar o Google porque nem os nomes dos livros me vem a memória, quanto mais a história, tampouco o sentido de cada uma. É esse o ponto que quero chegar: O sentido. Ou melhor (pior): a falta dele. Em 2005, segundo pesquisa do Ibope, “75% dos brasileiros apresentam muita dificuldade ou nenhuma habilidade na leitura e na escrita” – sendo maioria analfabetos funcionais. O sujeito lê uma frase, um parágrafo, ou um texto, mesmo que curto, mas não encontra um sentido nele. As explicações para isso são muitas. Problemas cognitivos, falta de atenção, hiperatividade (no caso de crianças), falta de motivação, assuntos complexos; explicações proporcionais a capacidade de leitura dos brasileiros. As crianças não são instigadas a ter gosto pela leitura. São obrigadas a ler livros cânones onde o assunto e a complexidade da linguagem é complexíssima. Os professores enfrentam dificuldades para encontrar o meio-termo, pedindo que seus alunos leiam os gêneros da moda ou a literatura “rasa”. De um lado temos o inatingível, por não terem bagagem que dê condições de alcançar o entendimento da linguagem; de outro, a “literatura pronta” com o descartável que pouco instigará os miolos juvenis. Não se obriga a ter prazer por qualquer forma de arte, nem a amar alguém.

Vivemos a cultura do vazio. Antes a família dava valores fortes e vivíamos - em muitos casos – oprimidos, mas tínhamos um norte. A cultura daquela época tinha costumes e práticas bem delineadas que iam do estilo de se vestir até a forma que devíamos nos portar à mesa. Hoje temos o outro extremo – novamente ele. Procuramos o pronto, ou semi-pronto. Não é à toa que os fast foods e as lojas de conveniências são as preferências. Nossas preferências hoje são reflexos da alma cultural que vivemos. Como diz o russo Viktor Chklovski, a verdadeira literatura é aquela que causa estranhamento –ostranenie- e não um simplório reconhecimento do objeto artístico ao se encaixar nos conceitos que o sujeito traz consigo. O papel da arte é fazer com que a obra se prolongue dentro da pessoa e, por conseqüência da ostranenie, incite novas relações que o sujeito fará com o mundo e a própria arte. A literatura cânone é distante do entendimento dos nossos jovens que estão na escola; o superficial, trazido pelas palavras rasas, não causa o estranhamento que possibilitaria novas posturas. Que esses livros sirvam como mochinhos antigos para ajudar-nos a alcançar os livros mais altos da estante. Façamos da leitura algo que nos instigue a encontrar novos sentidos e formas de pensar, agir, e até votar.

Logo mais irei até minha estante e procurarei algum romance filosófico. Vamos aos poucos que é para não assustar meus costumes.

Um comentário:

Oficina Literária Charles Kiefer disse...

Li a tua crônica e ela me parece sintomática de um mal que assoma a população, Não digo brasileira, mas mundial. Queremos escrever sem ler. Mas, para escrever bem e com profundidade, é preciso ler. Quem sabe forças um pouco, bate um pouco nesse teu alter-ego, pra que ela aprenda que quem manda és tu e não ele! Vai que ele é mazoquista e goste de apanhar! Assim, terás conquistado um leitor!

Abraço,

Charles Kiefer