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22 abril, 2011

O Pequeno Déspota e a Educação Através das Coisas


Relato verídico retirado de "Emílio" ou "Da Educação" de Jean-Jacques Rousseau. Nessa breve história Rousseau conta como os pais deixam que os vícios se alojem, cresçam e tomem conta do pequeno infante. Rousseau, no papel de preceptor/professor, tem uma atitude diferente da habitual para a época (meados de 1700) e, com certa segurança arriscando, para os atuais métodos de educação baseados no entregar o conhecimento ao invés de instigá-lo. Baseamos a educação em transporte de informações, na maior parte das vezes, áridas, lineares e dotadas de única visão sobre determinado assunto. Rousseau defende que a educação seja o mais próximo das coisas, na dependência delas e não dos vícios que nós enquanto pais e educadores criamos. Que somente o necessário seja buscado para que o supérfluo não passe a ser desejado. Há trezentos anos atrás Rousseau já falava sobre o tal consumismo.

"Durante algumas semanas, eu me encarregara de um menino acostumado não apenas a fazer suas vontades, como também a fazer com que elas fossem feitas por todos e, por conseguinte, estava cheio de fantasias. Desde o primeiro dia, para por à prova minha complacência, quis levantar-se à meia-noite. No mais profundo do meu sono, dele salta da cama, pega sua camisola e me chama. Levanto-me, acendo a vela; ele não queria outra coisa; ao cabo de quinze minutos, ele é vencido pelo sono e volta a se deitar, contente com seu resultado.

Dois dias depois, ele o faz de novo com o mesmo êxito, e de minha parte sem o menor sinal de impaciência. Enquanto ele me beijava ao tornar a se deitar, eu lhe disse tranquilamente: Meu amiguinho, tudo muito bem, mas não volte a fazer isso. Essa palavras excitaram a sua curiosidade e, a partir do dia seguinte, querendo ver de que maneira eu ousaria desobedecer-lhe, não deixou de se levantar à mesma hora e me chamar. Perguntei-lhe o que queria. Respondeu-me que não conseguia dormir. Tanto pior, respondi, e fiquei quieto. Pediu-me para acender a vela. Para quê?, e fiquei parado. Esse tom lacônico começava a embaraçá-lo. Tateando, foi procurar o isqueiro, que ameaçou acender, e eu não pude deixar de rir ao ouvi-lo tentar acendê-lo com os dedos. Finalmente, convencido de que não teria sucesso, ele trouxe o isqueiro até minha cama; eu lhe disse que não tinha nada para fazer com aquilo e virei para o outro lado. Então, ele se pôs a correr pelo quarto, gritando, cantando, fazendo muito barulho, dando na mesa e nas cadeiras esbarrões que tinha grande cuidado de moderar, e com que não deixava de gritar bem forte, na esperança de me perturbar. Tudo isso foi em vão, e percebi que, contando com belas exortações ou com cólera, ele não se preparara de modo algum para esse sangue frio.

No entanto, decidido a vencer minha paciência pela teimosia, ele continuou a algazarra com tal sucesso, que finalmente eu me enraiveci e, pressentindo que iria estragar tudo com um arroubo fora de propósito, resolvo agir de outra maneira. Levantei-me sem dizer nada, fui até o isqueiro, que não achei; peço-o, ele mo dá, radiante por finalmente me ter derrotado. Acendo o isqueiro e a vela, pego a mão do meu garotinho e o velo tranquilamente para um recinto vizinho cujas venezianas estavam fechadas e onde nada havia que pudesse ser quebrado; deixo-o ali sem luz; depois, fechando a porta à chave, volto a me deitar sem lhe dizer uma palavra. Não é preciso perguntar se no começo houve barulho, que eu esperava: não me abalei. Finalmente o barulho cessa; escuto, ouço-o ajeitar-se e me tranqüilizo. No dia seguinte, entrou cedo no recinto e encontro meu pequeno rebelde deitado uma cama, dormindo um sono profundo, do qual, depois de tanto cansaço, devia estar precisando muito.

O caso não terminou aí. A mãe soube que o filho passara dois terços da noite fora da cama. Logo, estava tudo perdido, era como se a criança tivesse morrido. Percebendo que a oportunidade era boa para se vingar, o menino se fingiu de doente, sem prever que não ganharia nada com isso. Chamaram o médico. Infelizmente para a mãe, o médico era um brincalhão, que, para se divertir com seus pavores, aplicava-se em aumentá-los. Todavia, ele me disse ao ouvido: deixe comigo, prometo que a criança ficará curada por algum tempo da fantasia de estar doente. Com efeito, prescreveu dieta e repouso, e recomendou o menino ao boticário. Suspirei ao ver aquela pobre mãe assim enganada por todos os que cercavam, exceto por mim, que ela passou a odiar, justamente porque não a enganava.

Depois de reprimendas duríssimas, disse-me que seu filho era o único herdeiro da família e era preciso conservá-lo o que custasse, e que não queria que ele fosse contrariado. Nisso eu estava de acordo com ela, mas ela entendia por contrariar não obedecê-lo em tudo. Percebi que devia assumir com a mãe o mesmo tom que com a criança. Senhora, disse-lhe eu com bastante frieza, não sei como se educa um herdeiro e, o que é mais, não quero aprendê-lo; podeis arranjar-vos a esse respeito. Precisavam de mim por mais algum tempo, o pai serenou tudo; a mãe escreveu ao preceptor para que apressasse o retorno; e a criança, vendo que não ganhava nada perturbando meu sono, nem estando doente, resolveu enfim dormir e gozar da saúde.

Não é possível imaginar a quantos caprichos semelhantes o pequeno tirano havia sujeitado seu infeliz preceptor, pois a educação se fazia diante da mãe, que não tolerava que o herdeiro fosse desobedecido em nada. A qualquer hora que ele quisesse sair, era preciso estar pronto para levá-lo, ou melhor, para segui-lo e ele tomava todas as precauções para escolher o momento em que o preceptor estivesse mais ocupado. Ele quis exercer sobre mim o mesmo domínio, e vingar-se de dia do repouso que era obrigado a me conceder à noite. Prestei-me de boa vontade a tudo e comecei por constatar diante dele o prazer que eu sentia em lhe agradar; depois disso, quando se tratou de curá-lo de sua fantasia, agi de modo diferente.

Primeiro foi preciso fazer com que ele errasse, e isso não foi difícil. Sabendo que as crianças só pensam no presente, assumi sobre ele a fácil vantagem da previdência; tive o cuidado de lhe proporcionar em casa uma diversão que eu sabia que ele adorava e, no momento em que o vi mais entretido, fui propor-lhe um passeio; mandou-me embora; eu insisti, ele não me ouviu; tive que me render, e ele anotou preciosamente em si mesmo esse sinal de sujeição.

No dia seguinte, foi a minha vez. Ele se aborreceu, como eu planejara; eu, pelo contrário, parecia profundamente ocupado. Não era preciso tanto para decidi-lo. Ele não deixou de vir me tirar do trabalho para levá-lo para passear o quanto antes. Eu recusei, ele teimou. Não, disse-lhe eu, fazendo a tua vontade, ensinaste-me a fazer a minha; não posso sair. Pois bem, respondeu ele vivamente, sairei sozinho. Como quiser. E retomei meu trabalho.

Ele se veste, um tanto inquieto por ver que eu o deixava agir e não o imitava. Pronto para sair, vem despedir-se; despeço-me ele se esforça por me alarmar com o relato dos passeios que vai dar; ouvindo-o, acreditar-se-ia que fosse até o final do mundo. Sem me perturbar, desejo-lhe boa viagem. Seu embaraço duplica. Contudo, conserva a compostura e, pronto para sair, diz a seu lacaio que o siga. O lacaio, já prevenido, responde que está sem tempo e, ocupado com minhas ordens, deve obedecer mais a mim do que a ele. Por essa o menino não esperava. Como conceber que o deixem sair sozinho, ele que acredita ser a pessoa mais importante de todas, e acha que o céu e a terra estão interessados em sua conservação? Porém, ele começa a sentir sua fraqueza; compreende que vai achar-se sozinho no meio de pessoas que não o conhecem; vê de antemão os riscos que vai correr; apenas a teimosia o sustenta ainda; desce as escadas lentamente e muito desconcertado. Finalmente, chega à rua, consolando-se um pouco do mal que lhe pode acontecer com a esperança de que me responsabilizarão por ele.

Era ali que eu o aguardava. Tudo estava preparado antecipadamente e, como se tratava de uma espécie de cena pública, eu obtivera o consentimento do pai. Mal havia dado alguns passos e ele começou a ouvir conversas a seu respeito. Vizinho, olhe o senhorzinho! Onde será que ele vai sozinho? Vai se perder; vou pedir para que entre em nossa casa. Vizinha, não faça isso. Não está vendo que é um pequeno libertino que expulsaram da casa de seu pai porque não queria fazer nada? Não devemos recolher os libertinos; deixe que vá para onde quiser. Muito bem, então! Que Deus o guie! Não gostaria que lhe acontecesse algum mal. Um pouco mais adiante, ele encontra alguns moleques mais ou menos de sua idade, que mexem com ele e zombam dele. Quanto mais avançava, mais embaraços encontra. Sozinho e sem proteção, vê-se joguete de todos e nota com muita surpresa que sua agulheta e sua roupa dourada já não lhe trazem tanto respeito.

No entanto, um de meus amigos, que ele não conhecia e que eu havia encarregado de protegê-lo, seguia-o passo a passo sem que ele se desse conta, e aproximou-se quando chegou a hora. Esse papel, que se parecia com o de Sbrigani em Pourceaugnac1, requeria um homem de espírito, e foi perfeitamente preenchido. Sem intimidar e amedrontar a criança impressionando-a com um terror muito grande, fê-la sentir tão bem a imprudência de sua temeridade que ao cabo de meia hora trouxe-a de volta a mim, dócil, confusa e sem coragem de erguer os olhos.

Para terminar o desastre de sua expedição, exatamente no momento em que o menino voltava seu pai descia para sair, e o encontrou na escada. Teve de dizer de onde vinha e por que eu não estava com ele*. O pobre menino preferiria estar a cem pés por baixo da terra. Sem se divertir fazendo-lhe uma longa reprimenda, o pai lhe disse num tom mais seco do que eu teria esperado: Quando quiseres sair sozinho, és tu que decides. Mas, como não quero ter um bandido em casa, quando isso acontecer, cuida de não voltar mais.

De minha parte, recebi-o sem reprimendas e sem zombarias, mas com um pouco de gravidade; e, temendo que ele suspeitasse que tudo o que se passara não fora nada mais do que uma brincadeira, não quis levá-lo para passear no mesmo dia. No dia seguinte, vi com grande prazer que ele, triunfante, passava comigo diante das mesmas pessoas que haviam zombado dele no dia anterior por tê-lo encontrado sozinho. É claro que ele não mais me ameaçou de sair sem mim.

É por esse e outros meios semelhantes que, durante o pouco tempo que estive com ele, consegui fazer com que fizesse tudo que eu queria, sem lhe ordenar nada, sem lhe proibir nada, sem sermões, sem exortações, sem aborrecê-lo com aulas inúteis. Assim, enquanto eu falava, ele ficava contente; ele compreendia que algo não ia bem, e sempre a lição vinha-lhe da própria coisa."

1. Peça de Molière

Em tal caso, podemos sem perigo exigir a verdade de uma criança, pois ela sabe então que não seria capaz de disfarçá-la e que, se ousasse dize ruma mentira, seria imediatamente descoberta.

01 abril, 2011

Por que mentimos?

"Aquele que sente a necessidade que tem do auxílio dos outros e experimenta continuamente sua benevolência não tem nenhum interesse em enganá-los. Pelo contrário, tem um sensível interesse em que vejam as coisas como são, temendo que eles se enganem em seu prejuízo. É claro, portanto, que a mentira de fato não é natural às crianças, mas a lei da obediência que produz a necessidade de mentir, porque, sendo penosa a obediência, secretamente dispensamo-nos dela o mais possível, e o interesse presente de evitar o castigo ou a censura sobrepuja o interesse distante de dizer a verdade.

Na educação natural e livre, por que vosso filho vos mentiria? Que tem ele para esconder de vós? Não o repreendeis, não o punis em nada, nada exigis dele. Por que não vos diria tudo o que fez com tanta inocência quanto ao seu coleguinha? Ele não pode ver nessa confissão mais perigo de um lado do que do outro.

(...)

Segue-se daí que as mentiras das crianças são todas obra dos professores, e que querer ensiná-las a dizer a verdade não passa de querer ensiná-las a mentir. No afã que se tem de regrá-las, de governá-las, de instruí-las, nunca se encontram instrumentos suficientes para ir até o fim. Querem-se abrir novas perspectivas em seu espírito através de máximas sem fundamento, de preceitos sem razão, e prefere-se que saibam suas lições e mintam a que permaneçam ignorantes e verdadeiras.

Quanto a nós, que só damos a nossos alunos aulas de prática e preferimos que eles sejam bons a que sejam doutos, não exigimos deles a verdade, por medo que a disfarcem, e não os fazemos prometer nada que sejam tentados a não cumprir. Se acontecer em minha ausência algum mal cujo autor eu ignoro, evitarei acusar Emílio ou dizer-lhe: Foste tu?

Nada mais indiscreto que tal pergunta, principalmente quando a criança é culpada; então, se ela acreditar que sabeis o que ela fez, verá que lhe preparastes uma armadilha, e tal opinião não poderá deixar de indispô-la contra vós. Se ela não acreditar, pensará: Por que revelaria eu o meu erro? E eis que a primeira tentação da mentira tornou-se o efeito de vossa imprudente pergunta.

(...)

O pormenor em que acabo de entrar a respeito da mentira pode sob muitos aspectos aplicar-se a todos os outros deveres, que só sob muitos aspectos aplicar-se a todos os outros deveres, que só prescrevemos às crianças para torná-los, além de odiosos, irrealizáveis. Para parecer que lhes pregamos a virtude, fazemo-las amar todos os vícios. Damo-las a elas ao proibirmos que os tenham."


Trechos retirados do livro "Emílio" ou "Da Educação" de Jean-Jacques Rousseau.

17 fevereiro, 2011

Homens-Anfíbios


Há muitos que creem ser o medo o motor da espécie humana, o sentido para alguns existencialistas, o desejo libidinal para os freudianos ortodoxos e o desespero para quem lê qualquer livro onde o personagem se deparou sobre si mesmo, Deus e a vida.

O medo vem, arrebata e faz as pernas tremerem causando um “terremoto vivencial”. As cidades vão ao chão, prédios caem sobre os outros e isso não acontece diferentemente nos homens; eles cometem suicídio através do corpo, da alma e moral (atrelado à alma); caindo, também atingem os próximos e estremecem um círculo por medidas de tempo variáveis, mas duras e cheias de lágrimas.

Mover-se através do sentido é farejar sem a necessidade de nenhum órgão material, é a vida indagando e puxando. Alguns escolhem parar, ali ficar, evitando as respostas. “Eu não espero nada da vida”, mas “quem sabe é a vida que esteja esperando algo de ti”.

Enxergar o ser humano com a lente “filtradora” da libido sexual não é vulgarmente reduzir ao estado de animal-coisa; é enganar-se e beber do próprio veneno. Pode-se dizer que reduzir o ser humano as vivências infantis e aos seus mecanismos narcisistas é um bom indicativo de projeção (mecanismo de defesa) do vazio de quem organizou esses pressupostos; colocando não somente sobre um indivíduo, mas de toda humanidade. Somos, sim, movidos por instintos, conteúdos inconscientes, dando vazão às fixações e conflitos edípicos, porém, não e tão somente podemos ser “desvendados” e vivenciados através de um passado que não existe mais porque, aliás, quem vive, vive no presente.

Somos os personagens da própria trama onde o escritor somos nós, agindo sobre si, tendo fé ou não em Deus e sendo os únicos responsáveis diante e na vida. Comumente o nosso desespero é projetado (o veneno) no meio social, nas organizações, nos pais, servindo de fuga daquilo que trazemos no peito, na alma. “O corpo fala”, não?! Quando a alma não dá conta, ou quando a negamos, o corpo trata de fazer o seu trabalho de sinalizar. Por estarmos mais preocupados com a carne e os seus prazeres (vontade de prazer e fuga do desprazer) é o corpo que a alma utiliza como sinalizador do desespero. Se não paramos, investimos atenção à alma e refletimos, o corpo trata de paralisar através das doenças – muito estudadas pela psicossomática. Que desespero é esse?

Quando mergulhamos em nosso Rio, rumo ao profundo do Eu, encontramos o desespero. Isso causa o medo. Temos medo de ter medo. Medo de descobrir o próprio Eu e assim desesperar em cliclos eternos – de mergulhar, se afogar, desesperar por descobrir, estar se afogando e não conseguir abrir os olhos apontando a superfície, alguns preferindo o afogamento. O homem é anfíbio. Precisa do ambiente mais denso e difícil de submergir - ele nasceu para isso e os órgãos do espírito estão todos a postos. Ele pode escolher mergulhar, encontrar o alimento para a própria vida, desafiar o desespero, encontrar a fé e Deus dentro de si, descobrir quem se é e voltar para a terra. Muito répteis ainda não saíram da casca existencial; estão sob a terra.

Aos corajosos e fortes de espírito a vida trata de assegurar sua sobrevivência enquanto submersos e sobre a terra. Cabe ao Homem-Anfíbio encontrar as profundezas, mas avistar no horizonte o que o próprio Eu-Leito não pode conceder; o sentido para onde caminhar, novos desesperos a superar, novos perfis do rosto de Deus e muito outros Rios a se banhar.

17 janeiro, 2011

Que é felicidade?

Se a felicidade é reduzida a certas drogas, tome-as e seja feliz. O fato é que remédio algum é feliz ou torna alguém feliz. Ele pode auxiliar o corpo a manter relativo equilibrio químico, nada mais.

O tema "Felicidade" é amplo e com diversas visões. A minha é de que felicidade não se conquista, não se compra, não se rouba. Felicidade, segundo creio, não é uma criação da mente, não é mera abstração, não é nenhuma homeostase do corpo tampouco da mente. Felicidade é o desenvolvimento, nossas ações e realizações dos nossos valores de vida, ser humano, Deus. Felicidade não se alcança nem se chega como se fosse ter chegado ao cume. Felicidade é o próprio caminho da vida. Ao caminhar já podemos ser felizes. Felicidade é ter um sentido para viver e realizá-lo. Não é possível dar sentido a vida, mas encontrá-lo e nunca estará em nós mesmos; isso é orgulho, egoísmo, narcisismo. Podemos encontrar sentido no sofrimento, na culpa, na morte, nos problemas diários, ao ajudar alguém, ao cuidar de alguém próximo ou não, realizando uma atividade, construindo algo que seja útil principalmente aos outros, oferecendo uma obra proveniente do nosso intelectual, científico, sentimental...

Quando mais se busca a felicidade, mais erramos o alvo, a meta. Felicidade só existe verdadeiramente como efeito colateral as nossas realizações, não como objetivo principal e único na vida.

"E onde a sorte há de te levar / Saiba, o caminho é o fim, mais que chegar" Rodrigo Amarante

10 janeiro, 2011

Liberdade: Infinita e Responsável

A paz não é sinônimo de viver bem nem suficiente para encontrar o que precisamos. Da nossa vida o maior e único responsável somos nós mesmos. O que ocorre frequentemente é que tentamos fugir ou diminuir nosso compromisso eterno com nós mesmos. O caminho (não digo mais fácil) é o de projetar a responsabilidade de mudar os meios e nós mesmos naquilo/naquele que está fora de nós.

O mito de Adão e Eva é o caso clássico que, por um lado, é até cômico ao exemplificar uma das maiores mediocridades do ser humano. Após a sedução sobre o se alimentar daquilo que o homem tanto deseja (a Verdade e a Ciência) sem ter despendido energia, sem méritos, aponta para Eva e tenta se eximir da responsabilidade de ter cometido o Pecado Original; constitui agora dois pecados: O de ter sido levado pela sedução, pela vaidade que é conhecer toda a Verdade e toda Ciência sem os devidos esforços e pior: Apontar aquela que já havia pecado e tentar colocar mais um fardo sobre as suas costas (o pecado cometido por si). Friso o verbo tentar por entender que não passa de tentativa, pois nunca alguém legitimamente eximirá da responsabilidade e possível culpa sobre sua própria ação ou intenção coagindo por meios inferiores tentando censurar e constranger o outro.

Mas e se a vontade sobre a minha vida é dirigida por Deus, esse ser Supremo, Justo e Bom? Deus como, sendo justo, não dar-nos-ia o fardo que não pudéssemos suportar, tampouco tiraria do ser humano o livre arbítrio e a responsabilidade de se posicionar diante das coisas que a vida nos apresenta; é daí que existe o mérito na evolução: a partir da escolha e labor. Qual seria o sentido de viver se fôssemos meros joguetes do acaso ou de outro Ser extra-nós? A vida nos impõe e até nos ataca, muitas vezes nos trancafia e, de certa forma, perdemos um dose grande de liberdade, seja ela física, psicológica ou espiritual, mas não perdemos a totalidade da liberdade seja qual for a situação ou imposição da vida. Exemplos de liberdade não nos faltam, mas o ser humano insiste acreditar no niilismo a ponto de dizer que nascemos ao acaso, vivemos ao acaso, somos obreiros do acaso, a vida é incerta, somos totalmente condicionados pelo meio e não fomos nem seremos livres. O niilismo mora sobre o nada e o nada nada provem.

Aquele que escolhe é livre (e responsável) pelo fato de ninguém, além dele, poder escolher por ele de forma legítima.

Para toda coerção existe a possibilidade de reação (resposta) que não pode ser dada por ninguém além da pessoa que sofre a ação (força); portanto, a partir desse ponto já temos a liberdade de emitirmos uma resposta e por ela sermos totalmente responsáveis, ou ainda agirmos passivamente, porque o ser humano é tão livre para reagir como para deixar-se de lado. Se a vida nos dá problemas de saúde e passamos a sofrer com dificuldades que, por ventura, nos privam de alguns (ou todos) movimentos do corpo, a alma ainda continua livre. O corpo é o meio que a alma se utiliza para se expressar. Tomemos o exemplo de paraplégicos que, dentro das suas limitações do orgânico, passam a utilizar (e até criar novos) meios para expressar suas vontades, inclusive a de pedir ajuda, trabalhar para obter o sustento do corpo atingido e inclusive ajudar outras pessoas com o mesmo problema. Os presos nos campos de concentração passavam pelas piores condições climáticas, de nutrição, estresse mental e por toda sorte de doenças infecciosas. Os guardas mantinham suas cabeças sob suas armas e entre as cercas, os corpos se amontoavam em cobertores medindo 2x2m num frio de -20°C, a nutrição consistia em uma única refeição por dia onde era servido somente sopa rasa e um pão, os parasitas eram as pestes, além dos infinitos males da alma; sendo esses últimos fatores os preponderantes para manter-se vivo ou ater-se ao niilismo. Muitos iam para o "fio" e outros tantos permaneciam vivos. Entre o permanecer vivo e ir para o fio (correr e atirar-se nas cercas eletrificadas, causando o suicídio) existe a decisão; faculdade humana que dá o caminho e legitima a existência. Segundo o existencialismo: Só vive realmente aquele que decide e escolhe o que fazer e quem ser.

Sendo assim, volto à reflexão: Se somente eu posso escolher quem ser e o que fazer, posso eu me julgar não livre e não responsável já que ninguém além de mim pode ser eu ou escolher por mim? Aquele que faz suas próprias leis (através da escolha e decisão), mediadas pela razão, no silencio das paixões, sendo tocado pela moral (leis da liberdade) e a ética (leis com base em um motivo e um dever moral) é um indivíduo essencialmente livre e responsável por suas leis sob os aspectos – inclusive - jurídicos que suas ações podem causar. Sofrer uma penalidade advinda de uma ação é somente um efeito, não a causa; penalidade é o efeito jurídico como consequencia de um ato julgado. Segundo Kant, "Qualquer ação é justa se for capaz de coexistir com a liberdade de todos de acordo com uma lei universal, ou se na sua máxima a liberdade de escolha de cada um puder coexistir com a liberdade de todos de acordo com uma lei universal".

Aquele que escolhe sua lei é seu senhor e é livre. A coerção e a influência não passam de coerção e influência, não constituindo, de forma alguma, a raiz, causa da minha ação. Levando em conta que todo efeito inteligente tem por base uma causa inteligente, não posso conceber coerção e influência como sendo sempre inteligentes tampouco dignos ou legítimos. O que não é digno nem legítimo para a vida humana não é válido nem salutar.

Talvez sejamos eternamente obrigados a viver e até sofrer, mas somos livres e responsáveis por escolher como viver e se posicionar diante da vida e do sofrimento.

22 outubro, 2010

Política como Consequência

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Essa foi uma avaliação obrigatória para a Oficina de Criação Literária ministrada pelo professor Charles Kiefer, disciplina da Faculdade de Letras da PUCRS -curso psicologia, mas procuro ter contato com outros conhecimentos-, escrita em aula no dia 5 de outubro - logo após a votação de 3 de outubro. O tema da avaliação era livre. Poderíamos falar sobre assuntos de literatura, história, sobre si, economia e etc, como quiséssemos. Como a política e o que precisa ser mudado está "fervendo" na minha cabeça, resolvi escrever.

09 setembro, 2010

A miséria e a dignidade da alma – pensando a política


A visão fica turva, as marolas são trocadas por tsunamis, as árvores deitam-se, os olhos tornam-se o mar que ninguém desvendou. Pobres almas sofridas, tomadas pela fome, mínguas de conhecimento. Homens vistosos, altos, vestindo os mais belos tecidos. Tecidos. Feitos de linhas que nem os maiores imperadores, nos tempos mais proveitosos, tiveram sobre suas ombreiras. Medalhas, menções, títulos, doutos nas ciências da Terra. O que fazem estes homens? Para onde conseguem vencer o olhar? Miseráveis são somente os que lambem sacolas de lixo cheias de matéria orgânica? Será que existe somente matéria orgânica benéfica? Existem somente bons homens na miséria? Essa miséria vivida é só na ausência de nutrientes do corpo ou existe a miséria moral?

Os valores morais não são subjetivos, contrariando os filósofos, psicólogos, analistas, sábios do raso humano. A “subjetividade” que tentam incrustar forçosamente é o véu de rendas ourificadas que deixa de fora os calcanhares e os pêlos que remetem a humanidade ao tempo que a barbárie era menos hipócrita. Os valores morais se mostram de todas as formas: palpáveis, doloridas, vivas, enfermas, coisificadas, e também positivas. Nenhuma providência existe por si só, sem uma razão. A visão que o indivíduo tem de um indivíduo tende a resultar em uma ação, que remete a essa visão. Se vejo alguém digno de respeito, tendo a agir com respeito. Se tenho o dever, segundo as convenções, de dar ao outro o que me propus a oferecer, tendo a oferecer. Com esses valores de respeito, dever e zelo pelas convenções, creio ter encontrado a base para viver sobre uma base forte em todas as relações, sejam elas quais forem. Todo ser humano é um Ser-Político.

A palavra política, vinda da polis, passa a um sentido mais amplo, de muito tempo antes das primeiras cidadelas. As relações políticas existem antes mesmo do nascimento, antes da concepção do embrião, antes dos pais se conhecerem, antes dos pais nascerem, antes de criarem os anticoncepcionais, e antes de existir o homo sapiens sapiens. Um ser político pode te atender em uma loja ou em um órgão público. São seres humanos diferentes em papéis diferentes; continuam seres políticos. A forma que o vendedor da loja atende é dirigida pelo seu dever vender. O como vender é dirigido por valores, por uma ética. Ele pode vender seus produtos sendo simpático, atencioso, conhecendo bem os produtos e cumprir o seu papel na venda. Mas os atributos desse profissional podem ser influenciados pela política de vendas da loja; que pode exigir uma meta de vendas, pressionando tanto a “produção” – venda – e principalmente o atendimento – política/forma do atendimento. O vendedor tenderá a além de atender e oferecer os produtos que o cliente deseja, “empurrar” produtos que talvez sejam caros, adicionar produtos que a pessoa não está procurando, negociará formas de pagamentos, quase todas elas onerando excessivamente o cliente e etc. O cliente tem a liberdade tanto de comprar como de negar as ofertas forçadas, o que não anula o desejo do vendedor e a política de venda obstinada, que foi o que quis ressaltar. O médico de um órgão público trabalha e se relaciona através da sua política de trabalho e da instituição, onde é permeado. Segundo relato verídico de uma usuária do sistema de saúde de Porto Alegre, ela conta que sua consulta fora marcada para as 11h30. Após aguardar uma hora, foi até a recepção e indagou sobre a possibilidade de ter ocorrido algum problema na marcação da consulta ou com a ausência da médica. A recepcionista informa que a médica está no posto de saúde e logo será atendida. Foi então que a paciente saiu do posto e caminhou até a lanchonete. Lá estava a médica tomando seu café sob o Sol. A senhora perguntou a médica: “A senhora deveria ter me atendido há uma hora”. A resposta foi: “Senhora, isso aqui é o SUS”. Inevitavelmente pensamos na situação do Sistema Único de Saúde do nosso país e pouco lemos sobre a sua política. No site do SUS e no seu estatuto está escrito: “O SUS institui uma política pública de saúde que visa à integralidade, à universalidade, ao aumento da eqüidade e à incorporação de novas tecnologias e especialização dos saberes”. Sem o atendimento liquida-se com toda proposta do Sistema. Dá-se adeus a integração das áreas médicas, universalidade na abrangência do público assistido, equivalência de direitos ao atendimento em saúde, tampouco ao uso dos milhões gastos em tecnologia e qualificação dos profissionais. Diante da análise breve, vemos que a política do sistema de saúde é perfeita, justa e a intenção é de humanizar e aproximar os profissionais daquele que precisa de ajuda. A falta de ética, a cegueira para os valores humanos, incapacidade de ser responsável com o outro, a amputação dos direitos humanos daquela senhora, e de muitos brasileiros e viventes do mundo todo, é feita todos os dias devido à política pessoal de relacionamento e de trabalho que muitos indivíduos tem.

Durante a leitura dos exemplos acima certamente o leitor pensou em algum caso; se não lembrou algum, certamente já passou por alguns sofrimentos devido a formas negativas que as pessoas procuram tratar as outras. Muito se ouve falar sobre a crise de valores. As três palavras “quebra de paradigmas” ecoam gerando uma repugnância e um embrulho espiritual. Quebra-se o quê? Quebram pernas e retalham almas de pessoas todos os dias. Como é visto, sentido e sofrido, os valores não são mais tão subjetivos e escondidos atrás de carapaças intelectualizadas de filósofos, sociólogos e psicólogos de gabinete. Todos sofrem devido a Seres-Políticos que tem o poder como único objetivo. Tendo esse desejo de poder obstinado ficam cegos para as necessidades, sofrimentos e passam por cima de qualquer um, principalmente daquele (outro candidato) que também está obstinado e cego pelo poder. Nas eleições deste ano, vemos dossiês, ataques, mentiras, falácias, meias-verdades, fuga de debates de idéias e propostas (políticas); tudo para chegar ao poder. Poder ter, em detrimento ao valor de poder ser. Ser alguém mais digno para si e, principalmente, para aqueles que deveriam se propor a trabalhar; pelo povo, não para o próprio bolso, não é, mensaleiros, corruptos?

Nas escolas: enquanto as pessoas não forem instigadas a pensarem por si, procurarem as informações em diversos cantos, trabalharem as formas de se relacionar responsavelmente e livremente, criarem novos conhecimentos levando em conta os valores éticos, as coisas vão demorar no tornar-se humano. Esses seres humanos devem ouvir suas consciências. Deverão fugir dos extremos do totalitarismo oriental e da passividade niilista ocidental. Todos somos políticos em pleno potencial de exercer essa política, de acrescentar a vida do outro, de mudar alguma coisa dentro de nós que seja proveitoso para o outro. Analise a nossa visão niilista sobre os “políticos” que pedem seus votos, que os levarão ao poder e, possivelmente, à posse de dinheiro alheio. Pensemos por nós mesmos antes de acreditar cretinamente que nenhum político que se candidata a alguma esfera do poder (executivo ou legislativo) é “corrupto” e “ladrão”. Antes de tudo, antes daquele se candidatar e se eleger, tu és um político, e és tu quem o elege, ou não.

Não escrevo com cunho moralista ou com desejos de que ajam de determinada forma, já prescrevendo uma única forma, uma única verdade. Proponho para que pensem por si, buscando suas formas e talvez se candidate, não somente a um cargo, mas a exercitar a liberdade de direito de forma responsável.

Penso, tenho fé na justiça. Façamos a nossa parte em todos os momentos onde somos instigados a exercer nosso poder político.

“A ciência não torna o homem melhor(...)” - Jean Jacques-Rousseau.

“(...)o que se propõe a isso são os valores e um sentido de vida; que o fazem evoluir, somente como uma conseqüência destes valores éticos e vivenciais” – Ivan Pielke.