
12 junho, 2011
Nesses Versos

05 junho, 2011
AindAcordar
27 maio, 2011
Enquanto eu durmo

17 maio, 2011
O que é nosso
15 maio, 2011
Antimanicomial - Um Movimento?!

A história mostra os movimentos da relação entre loucos e sociedade. Eles já habitaram leprosários, prisões, ilhas, hospitais gerais e manicômios. Dividiram espaços com leprosos, tuberculosos, criminosos e toda sorte de portadores de alguma coisa que apontasse para o adoecimento. Mas a cronologia também aponta que esses loucos já foram sábios, gurus, intermediários entre os deuses e os mortais, bruxos e até mentores de muitas comunidades. Em determinados contextos, com a evolução do pensamento e da ciência, os loucos tiveram tratamento diferente no meio onde viviam; nem sempre tratados com respeito, muitas vezes superestimados em poderes, outras esquecidos – a sociedade, a ciência, o ethos (costumes de um povo) e a religião influenciaram no “diagnóstico” daqueles que eram ajustados ou desajustados, segundo parâmetros relativamente ou hipocritamente estabelecidos.
No final dos anos 1970 surgem os primeiros movimentos críticos da reforma psiquiátrica no Brasil, tentando fazer uma reformulação do pensamento com relação ao tratamento e eticidade com relação aos desajustados ou, se preferir, portadores de sofrimento psíquico. Essa forma de pensar foi muito influenciada pelo zeitgeist da década anterior, onde surgiram os hippies, artistas como os Beatles, Bob Dylan, as feministas e diversos grupos que defendiam o fim da guerra fria, os confrontos no Vietnã, a valorização dos direitos humanos. Mas é na Itália que criam a lei 180, em 1978, sob o avanço da psiquiatria democrática; um novo modelo de prática psiquiátrica que serviu de parâmetros para novas legislações e relações entre as instituições e os loucos.
Os seres vivos, especialmente os animais, tendem a viver em movimento; seria diferente com os animais que sofrem? Agora tomamos a ordem inversa ao modelo anterior – as instituições que serviam de habitação e tratamento, muitas vezes até o findar da vida do paciente, começam a ser substituídos por novas praticas. As almas doentes começam a ser vistas com direitos e detentores de possibilidades. O espaço físico se amplia, onde tentavam conter o corpo devido ao estigma da periculosidade, busca ajudar o paciente a ter maior liberdade e condições de lidar com essa liberdade, com seus direitos a serviços de saúde, atenção e reinclusão social. Segundo creio, os loucos nunca estiverem fora da sociedade, mas sua existência fora negada nessa sociedade; o que não é sinônimo que não estivessem inseridos. Os loucos, como tantos outros grupos com suas necessidades, hoje tem muitas dificuldades de acesso aos bens básicos como educação, saúde, segurança e principalmente auto-estima.
Além de conhecer a história do movimento antimanicomial, precisamos conhecer o que está sendo feito hoje, onde a loucura nasce e como devemos agir para evoluir. Evoluir, nesse caso, é poder ajudar o outro de forma ética e justa. A loucura surge na educação, na relação familiar, baseada em um ethos, na relação de pais-cuidadores que agem segundo seus valores morais e seus filhos. O dilema está entre os indivíduos e o vazio ético que vivem, levando para a sociedade esse vazio e trazendo para casa toneladas da podridão social. Nos relacionamos com negligência, desrespeito, ignorando que na nossa frente existe alguém e esse outro tem suas necessidades e direitos. É assim que surge a loucura, não de um lugar distante, mágico, em alguma Disneylândia, ou dentro dos manicômios e clínicas psiquiátricas, mas nos cômodos das residências civis, na cozinha, nos quartos e nas salas. Só procura atendimento médico quem está doente ou quer prevenir a doença.
Vivemos uma nova loucura, não a psíquica, neurológica, médica; a loucura moral, antecessora da loucura psíquica. Vivemos uma loucura noogênica, aquela loucura do vazio, do vácuo existencial.
Agora precisamos trabalhar para além dos residenciais terapêuticos, dos Serviços de Atenção Psicossocial, dos ambulatórios hospitalares e tratamentos psicofarmacêuticos; a loucura vem de casa, deve ser constata na escola, tratada desde cedo. Os pais, como os professores (humanos, tal como a criança) necessitam de cuidados. Ninguém está isolado na sociedade, por maior que seja a distância física e psíquica (como viviam nos manicômios), não estavam ali por acaso, existe uma causa proveniente da sociedade e a sua visão ética-política sobre a saúde e doença mental. É necessário abandonar o conceito rígido de “família estruturada” baseada em pai e mãe “saudáveis”. O senso comum, neste caso, não mente: em quase todos os grupos familiares temos relativos graus de loucura.
O desafio é desenvolver o pensamento moral na escola, que esse pensamento surja de dentro para fora, não em novas catequeses sob modelos políticos, ideológicos e/ou partidários. Colégios não sejam os novos manicômios, onde supostamente aprendem, mas que na realidade adoecem e reproduzem a doença das instituições do Estado. Essas crianças sejam cuidadas, suas famílias vistas, o vazio moral e existencial seja substituído pela liberdade de pensamento, responsabilidade sobre ser quem se é e sobre os seus presentes e futuros atos; não se tornem os antigos “alienados” mentais tampouco os novos viciados em alguma droga que diariamente surge.
Nesse 18 de maio, dia da Luta Antimanicomial, convido os leitores a pensar, reformular e abrir as nossas portas manicomiais do Estado. Os loucos talvez não sejam os “alienados” mentais, “loucos de pedra”, e o esquizofrênico da novela; a loucura moral está votando no político que de antemão sabemos que lesou os que confiaram a ele seus direitos básicos; a loucura moral do professor que está mais interessado no conteúdo que exercitará somente a memória, não as atitudes da criança; a loucura moral está no extremo da negligência dos pais quanto ao cuidado ou no excesso de poder que exerce sobre seu futuro “bandido”, “viciado” e “louco”.
Tenhamos confiança que existe um sentido para viver, que esse por que viver se reflita no social ajudando para que talvez surjam novas formas de relação que não sejam loucas moralmente ou psiquicamente.
“Não é demonstração de saúde ser bem ajustado a uma
sociedade profundamente doente”
Jiddu Krishnamurti
Mais artigos, ensaios e outros escritos em: www.pelaalma.blogspot.com
Sugestões de leitura:
“História da Loucura” – Michel Foucault
“Em Busca de Sentido – Um psicólogo no campo de concentração” – Viktor Frankl
“Liberdade para Aprender” – Carl Rogers
“Emílio ou Da Educação” – Jean-Jacques Rousseau
11 maio, 2011
Sem esquadra
10 maio, 2011
Findar do Fel
07 maio, 2011
A alma mais leve
17 abril, 2011
A Sociedade do Vazio

“Como viver?” – “Por que viver?”
Gerações atrás receberam as respostas e de alguma forma deram conta da sua vida, mesmo que com narizes torcidos. O mundo parecia girar mais devagar, as informações e conhecimento também corriam com velocidade menor que a de agora. Ensinar, segundo as palavras de Carl Rogers, é tarefa “excessivamente supervalorizada”. Ensinar como viver ou agir é muito útil e proveitoso em um meio que se modifica pouco, onde a velocidade do meio é lenta, ao passo que em um meio veloz como o nosso as informações, as ciências e a natureza se modifica na velocidade do pensamento. Não seria mais proveitoso facilitar o aprendizado através do indivíduo, ao invés de dar o conhecimento que julgamos previamente ser útil? Quem tem fome de alimentos busca o sustento no supermercado. Quem tem fome de conhecimento espera que alguém venha ao seu encontro e entregue já mastigado.
Na escola ou na academia somos ensinados através de livros didáticos e teorias que mais parecem manuais de como proceder. Somos reduzidos a técnicos-não-humanos. Quer saber como amputar um braço? Ali está. Como atender um paciente “depressivo”? Diagnostique-o com o DSM (manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais), leia o manual de técnicas de entrevista e receite o antidepressivo. Para todo problema existe a solução ou a cura, sem precisarmos nos ater e a refletir. Ser um humano pressupõe pensamento, razão, reflexão, metacognição, mas incrivelmente o ser humano tenta seguir a teoria de Darwin na ordem inversa; “desevolução” da razão. Pergunte o que o indivíduo pensa sobre sua única aula de ética que teve na faculdade ou a disciplina de filosofia e bioética, se ele gostou ou achou útil. A maioria acha “um saco” e inútil. É a desvalorização dos valores humanos, é a coisificação da vida humana, é a técnica pronta contradizendo a frase clichê que poucos se dão conta e conseguem se adaptar de maneira satisfatória: O mundo está em constante mudança e as ciências avançam cada vez mais rápido. Será que as técnicas e suas respostas de agora servirão daqui a um mês, um ano, uma década? Creio ser mais construtivo ajudarmos o ser humano a encontrar as suas respostas através dele mesmo.
Tínhamos valores rígidos e formas de viver pré-estabelecidas: nasce, educa, vai para o colégio, arranja um par para a filha ou o filho, vai a faculdade estudar direito ou medicina, casa, tem filhos. Repete o mesmo ciclo que citei após os dois pontos. Tínhamos as respostas prontas, vindas da boca dos pais, dos professores, mas em um meio onde tudo era mais lento. Não acredito que aquele “método” era melhor, mas com certeza dava mais “resultados” do que os de agora. Um diálogo entre Viktor Frankl e um companheiro que expressava o seu desejo de “ir para o fio”, ou seja, cometer suicídio, repete-se diariamente.
- Não espero mais nada da vida. Ela não faz mais sentido.
- Talvez não seja tu que devas responder a essa vida; ao invés de esperar que ela responda por ti?
Há uma revolução copernicana nesse diálogo. Onde temos um meio que não tenta dar as respostas prontas, o indivíduo tende a ter contato com a responsabilidade de encontrar as suas respostas através de si. Somos famintos por aquilo que possa nos encher de alguma forma. Para isso recorro a conselhos, remédios, bulas, drogas, jogos e toda forma de relação que tenta deturpadamente preencher e dar significado a minha vida, a minha existência. Não temos mais as formas certas e preconcebidas dos pais, eles estão cada vez mais distantes, com menos tempo para nós. Hoje, quem são os nossos pais? É a televisão, internet, jornal e as mídias. Os professores se encontram onde nesse vácuo deixado pelos pais? Que valores são instigados nos indivíduo? Tu, caro leitor desse artigo, percebe que encontrou muito mais perguntas do que respostas? Creio que as pessoas que nos rodeiam devam ser assim. Indaguem, fustiguem e nos ajudem a encontrarmos as respostas, muitas vezes sem emitir uma única palavra.
Escolhemos representantes que trabalhem por nós, votamos neles, consumimos santinhos, mastigamos o horário eleitoral, os colocamos no mesmo saco e despejamos todo esse lixo existencial em uma urna eletrônica. A vida vazia e deturpada se alimenta de mentiras como porcos atrás de mais lixo. Nos alimentamos de restos e excrementos daqueles que nós escolhemos. A escolha, dádiva unicamente humana, reduzida a mentira. Um cidadão em sã consciência entrega os seus pertences a um bandido que não dispõe de meios que possa tirar a sua vida ou atacar a sua integridade física? Um povo que entrega não somente os seus bens (impostos), mas a sua saúde, segurança, educação e oportunidades de emprego nas mãos que sabidamente são de um bandido está louco? Encontre um sentido em entregar a administração da sua vida, da sua família e de toda a nação nas mãos daqueles que não tem o dever ético e moral coerentes com o seu papel. Um povo louco não faz justiça, destrói toda chance de exercer algum poder através da fala ou da escolha sobre a sua vida. Esse é somente um exemplo do vácuo social que nos encontramos, pois ainda temos um governo que incentiva esse povo a consumir cada vez mais e, ao mesmo tempo, tira desse povo cada vez mais tributos. As bolsas, carros, sapatos e televisores não tapam a “nhaca existencial” que vivemos por sermos frustrados de nós mesmos por não assumirmos a responsabilidade sobre o próprio, a própria vida. Queremos a igualdade social, mas essa igualdade é de renda, não de acesso a serviços qualificados em saúde, segurança, educação e infra-instrutura. Não desejamos os meios propícios para nos desenvolvermos de dentro para fora; desejamos a renda para sustentar o estômago e os nossos vícios.
Sartre, Nietzsche e outros autores viram e abordaram o vazio existencial de forma brilhantes, mas cometeram o erro simples de tomar o efeito pela causa. A vida não é carente de significado; o contrário: a vida tem sentido em si mesma, há um sentido, mas não é porque ainda não encontramos (ou negamos) que esse sentido não exista. Há muito mais fanfarronice etílica nesse copo vazio do que verdadeira crença no vácuo.
No Brasil, um país onde 75% das pessoas são analfabetos funcionais (lêem um texto, mas não encontram o significado), seremos capazes de encontrar um sentido na vida e/ou uma direção social? O texto da vida está sobre a mesa; a responsabilidade por encontrar um significado nele está em nós.
“Quem tem por que viver suporta quase qualquer como”
Friedrich Nietzsche
12 abril, 2011
Pleonasmo
Nada é tão verdadeiro
Andar para frente
Lembrar passado
Costurar o estofado
Cambalear da pinga
Sombreado à tardinha
Socorrer do médico
Psicanalista e o Édipo
Mas agora é certeiro!
Mesa de sinuca - caçapa
Alvo e os nossos dardos
Quando acordar e querer o teu ar
É o meu pleonasmo
Ainda
04 abril, 2011
Entre a terra e o asfalto
Buzinas, burburinhos, carroceiros, ônibus jorrando fumaça, buzinas de motoboys e borboletas no asfalto são comuns na vida porto-alegrense. Temos os cortes de cabelo, vendem e compram ouro; picanha, alface, buchada, erva mate, suplementos alimentares e muito cheiro de peixe fresco - e não tão fresco; andamos entre bancos, praças, pichações, ratos-alados e alguns deputados; a poluição é grande na capital. “Vrum”, “bee”, “pof”, “crrrrri”, “rrrom ppppf”, exclama o trânsito. A multa é “caneteada” pelos azuizinhos e autuada em nossos ouvidos. Os restos dos habitantes vão parar nas bocas lúgubres dos mendigos esquecidos pela sociedade; esses deitam sobre os catarros e excrementos das calçadas. A vida na cidade é bela.
Temos necessidade dos tais grandes centros, onde há muito e pouco se encontram; encontramos muitas coisas, nos aproximamos pouco das pessoas. Não faço paralelos nem uso o interior como parâmetro para medir o quanto é bom ou ruim a cidade ou “as grota”, mas penso existir uma diferença entre viver na cidade e em lugares mais calmos, onde há menos anônimos e mais pessoas. Em lugares assim as pessoas estudam do jardim até o ensino médio juntas, aí partem para as faculdades da cidade. Passam anos convivendo, cultivando amizades próximas e verdadeiras, mas chega a hora de partir. O baque é grande nesse êxodo, tanto sentimentalmente como também na locomoção, transporte, tempo gasto no trânsito, valores gastos para se locomover. E aí está um grande paradoxo: As pessoas se movem muito, mas dificilmente saem da rotina do além-linha-de-ônibus/carro-estacionamento-casa-faculdade. Damos graças à Deus por chegar a sexta-feira, preparar o drink ou colocar aquela (!) cerveja no congelador (para “gelar” o mais rápido possível).
Já falei a algumas pessoas sobre o meu desejo de ir para o interior, de preferência a serra gaúcha, depois ter vivido a vida na cidade, constituído família, conquistado a independência financeira, as missões que devo cumprir como ser humano por aqui. Lá quero uma casa com piso de madeira, lareira, fogão à lenha, patos, galinhas, gansos, cachorros e gatos andando e fazendo barulho, agora no além-janela-vistadamontanha-árvores-cheirodeeucalipto. Terei uma janela com vista para as montanhas, eucaliptos, araucárias, cedros e cipós. Lá embaixo pode ter um Rio estreito e uma estradinha de terra onde só passa um carro ou uma carroça. Estarei velho; precisarei de um carro. Poderá ser um Gol 1000, equivalente a um Fusca nos nossos dias. A venda (armazém) pode ser longe; cinco ou dez quilômetros, tanto faz, terei bastante tempo. Precisarei somente de polenta, arroz, feijão, sabonetes, sabão, pasta de dente e sementes. Na horta planto alface, tempero verde, cebola, pimentão e tomate. Ali ao lado tem batata, milho, melancia e o arvoredo com laranjas, bergamotas e ameixas.
Parece sonho, mas um dia já tive isso e quero novamente. Quando tive, foi na infância e por toda a adolescência. Vivi entre cidade e fazenda, mas não refletia sobre o abismo que existe entre o asfalto e as porteiras de madeira cortada na própria fazenda. Os peixes eu mesmo pescava, a carne era dos bois que eu mesmo ajudava a tratar e curar. Os ovos eu apanhava ainda quente, recém saído da galinha. Queria uma laranja? Ia até o pé, arrancava e puxava da adaga e deixava as cascas ali mesmo, sem poluir nada. Jabuticaba tinha tanto que nem os passarinhos davam conta de comer. É uma vida mais próxima do natural.
Não citei a mulher. Será que a terei nessa idade? Quero ter filhos e, aliás, tenho a intuição que o primeiro será primeira. Quero educá-los o mais próximo possível de como a natureza os educaria. A sociedade e cidade ensinam muito, instruem muito, mas educam proporcionalmente ao contrário; quero ser pai, não instrutor ou mais um mero informador. Quero oferecer a terra para eles pisarem, os brinquedos de madeira para estragarem e os computadores para eles estudarem, se informarem e se comunicarem. Os livros estarão ao alcance e claro que tentarei mostrar e oferecer os que acredito serem da alma e de proveito para eles, mas não privarei de lerem supérfluo, até porque eles podem servir, inclusive, de parâmetro do que não ler. Não desejo que cuspam no chão nem dêem esmolas aos mendigos, mas que prefiram comprar comida e votar em pessoas que possam dar educação e instrução a essa pessoas; que meus filhos sejam solidários desde a raiz, como as das plantas que eu desejo cultivar.
Aqui pela cidade quero trazer um pouco da humanidade de cada pessoa, a naturalidade e espontaneidade de quem não tem vaidade a zelar. Não quero pessoas entre excrementos, escarros e carros baforando fumaças nelas. Quero comprar o que necessito sem que gritem em meus ouvidos como se estivessem em uma guerra para ver quem lucra mais ou conquista mais clientes. Quero que cada um tenha o seu canto, o seu espaço e esse espaço seja calmo, mesmo que na cidade. Desejo um dia ter uma vida calma, onde eu possa escrever coisas melhores que essas, sem ter janelas piscando; mas somente um minuano com eucalipto e o cheirinho da comida da nega véia subindo entre os frisos do assoalho.
03 abril, 2011
Além

Sorte no jogo ou no amor... Embora o segundo não deva ser um jogo, só existe se apostar.
O ser humano tem infinito potencial pra ter insights e em mesma magnitude pra deturpar todos eles.
Muitos de nós só temos relações fantasiosas e quando chegamos próximo do real sentimos a necessidade de negá-la.
Quem cobra muito do outro cobra pouco ou nada de si.
O melhor conselho: Escuta os outros, mas ouve o que tua razão pede, unida ao que teus sentimentos mostram.
O corpo barulhento é a alma se debatendo para se libertar.
Muitos tem a sensação que o daltônico é cego. Como na humanidade, os que menosprezam a leve diferença são os verdadeiros cegos.
Na vida sempre procurei alguém ideal pra mim. Parece que o ideal era aprender com aquelas que sabia que não iam me fazer o bem.
Uma das doenças do hipócrita é a memória curta.
Essa vida é apenas uma hora comparada à eternidade, mas desperdiçá-la faz pagarmos por anos e até séculos.
Às vezes, calar a boca é a melhor maneira de respeitar.
A vida é a única coisa que não há possibilidade de retroceder, mas as pessoas tentam isso com muita força.
Os opostos não se atraem. Existe a lei do viver bem, do cuidar e estar junto por admiração.
Quer saber o que sobrou ou descobrir que nunca sentiu algo por alguém? Pergunte: O que tu admiras nele? Aponte virtudes nela.
Há dias que não sei se penso ou se sinto. Na dúvida deixo que pensem e sintam também.
23 fevereiro, 2011
Assoprar

Os assopros da luta diária afastam as nuvens
Do desespero, da angústia, dos tormentos
Andar sempre, caminhar nos momentos
Alguns outros, como eu, erraram por galerias
Ouviram vozes das esculturas,
conversaram com os mortos
Aí estão!
Todos a postos esperando
A areia da ampulheta escorre como o sangue
Hoje o que mais importa é a saudade e o presente
De mãos dadas ou abanando as mãos
O mais importante ainda é errar
Amar sobre tudo, todos
Desde que tenhamos e vivamos o resto de nossas vidas
Sem restar nada
Afinal, sobre os dias sempre ficam as dúvidas consoladoras
17 fevereiro, 2011
Homens-Anfíbios
Há muitos que creem ser o medo o motor da espécie humana, o sentido para alguns existencialistas, o desejo libidinal para os freudianos ortodoxos e o desespero para quem lê qualquer livro onde o personagem se deparou sobre si mesmo, Deus e a vida.
O medo vem, arrebata e faz as pernas tremerem causando um “terremoto vivencial”. As cidades vão ao chão, prédios caem sobre os outros e isso não acontece diferentemente nos homens; eles cometem suicídio através do corpo, da alma e moral (atrelado à alma); caindo, também atingem os próximos e estremecem um círculo por medidas de tempo variáveis, mas duras e cheias de lágrimas.
Mover-se através do sentido é farejar sem a necessidade de nenhum órgão material, é a vida indagando e puxando. Alguns escolhem parar, ali ficar, evitando as respostas. “Eu não espero nada da vida”, mas “quem sabe é a vida que esteja esperando algo de ti”.
Enxergar o ser humano com a lente “filtradora” da libido sexual não é vulgarmente reduzir ao estado de animal-coisa; é enganar-se e beber do próprio veneno. Pode-se dizer que reduzir o ser humano as vivências infantis e aos seus mecanismos narcisistas é um bom indicativo de projeção (mecanismo de defesa) do vazio de quem organizou esses pressupostos; colocando não somente sobre um indivíduo, mas de toda humanidade. Somos, sim, movidos por instintos, conteúdos inconscientes, dando vazão às fixações e conflitos edípicos, porém, não e tão somente podemos ser “desvendados” e vivenciados através de um passado que não existe mais porque, aliás, quem vive, vive no presente.
Somos os personagens da própria trama onde o escritor somos nós, agindo sobre si, tendo fé ou não em Deus e sendo os únicos responsáveis diante e na vida. Comumente o nosso desespero é projetado (o veneno) no meio social, nas organizações, nos pais, servindo de fuga daquilo que trazemos no peito, na alma. “O corpo fala”, não?! Quando a alma não dá conta, ou quando a negamos, o corpo trata de fazer o seu trabalho de sinalizar. Por estarmos mais preocupados com a carne e os seus prazeres (vontade de prazer e fuga do desprazer) é o corpo que a alma utiliza como sinalizador do desespero. Se não paramos, investimos atenção à alma e refletimos, o corpo trata de paralisar através das doenças – muito estudadas pela psicossomática. Que desespero é esse?
Quando mergulhamos em nosso Rio, rumo ao profundo do Eu, encontramos o desespero. Isso causa o medo. Temos medo de ter medo. Medo de descobrir o próprio Eu e assim desesperar em cliclos eternos – de mergulhar, se afogar, desesperar por descobrir, estar se afogando e não conseguir abrir os olhos apontando a superfície, alguns preferindo o afogamento. O homem é anfíbio. Precisa do ambiente mais denso e difícil de submergir - ele nasceu para isso e os órgãos do espírito estão todos a postos. Ele pode escolher mergulhar, encontrar o alimento para a própria vida, desafiar o desespero, encontrar a fé e Deus dentro de si, descobrir quem se é e voltar para a terra. Muito répteis ainda não saíram da casca existencial; estão sob a terra.
Aos corajosos e fortes de espírito a vida trata de assegurar sua sobrevivência enquanto submersos e sobre a terra. Cabe ao Homem-Anfíbio encontrar as profundezas, mas avistar no horizonte o que o próprio Eu-Leito não pode conceder; o sentido para onde caminhar, novos desesperos a superar, novos perfis do rosto de Deus e muito outros Rios a se banhar.
Às Vezes Acordar

27 janeiro, 2011
Aos meus companheiros
25 janeiro, 2011
Antes de morrer
17 janeiro, 2011
Que é felicidade?

Se a felicidade é reduzida a certas drogas, tome-as e seja feliz. O fato é que remédio algum é feliz ou torna alguém feliz. Ele pode auxiliar o corpo a manter relativo equilibrio químico, nada mais.
O tema "Felicidade" é amplo e com diversas visões. A minha é de que felicidade não se conquista, não se compra, não se rouba. Felicidade, segundo creio, não é uma criação da mente, não é mera abstração, não é nenhuma homeostase do corpo tampouco da mente. Felicidade é o desenvolvimento, nossas ações e realizações dos nossos valores de vida, ser humano, Deus. Felicidade não se alcança nem se chega como se fosse ter chegado ao cume. Felicidade é o próprio caminho da vida. Ao caminhar já podemos ser felizes. Felicidade é ter um sentido para viver e realizá-lo. Não é possível dar sentido a vida, mas encontrá-lo e nunca estará em nós mesmos; isso é orgulho, egoísmo, narcisismo. Podemos encontrar sentido no sofrimento, na culpa, na morte, nos problemas diários, ao ajudar alguém, ao cuidar de alguém próximo ou não, realizando uma atividade, construindo algo que seja útil principalmente aos outros, oferecendo uma obra proveniente do nosso intelectual, científico, sentimental...
Quando mais se busca a felicidade, mais erramos o alvo, a meta. Felicidade só existe verdadeiramente como efeito colateral as nossas realizações, não como objetivo principal e único na vida.
"E onde a sorte há de te levar / Saiba, o caminho é o fim, mais que chegar" Rodrigo Amarante
12 janeiro, 2011
Além
. Para as dores do corpo temos analgésicos aos montes que nos deixam dormentes. A alma, mesmo com o corpo dormente, continua a sentir dor.
. A pessoa reage de acordo com o que ela é.
. Ser útil cansa. Mas... Ser útil aos outros dá mais trabalho. Ser útil a própria alma e ao do outro é pentatlo moderno. Exige mil atividades.
. É no silêncio das paixões que nos aproximamos da verdade. Nos aproximamos.
. As dúvidas edificam os caminhos para as certezas. Partir da certeza é cavar abismos.
. Em uma pessoa de coração ruim suas ações negativas lhe causam prazer; ao passo que ao ver alguém bom isso lhe causa rechaço ou negação.
. Lei das energias fluídicas. As pessoas se aproximam por afinidade ou por busca do que precisam aprendem. Se afastam pelo contrário disso: Não terem afinidade ou não quererem aprender.
. Aquele que vive dentro de si morre em si. Aquele que vive através de si inevitavelmente trocará energias com a vida (exterior).
. A doença da alma está no egoísmo, orgulho, cupidez, ódio. Analise: Tudo em torno de si, esquecendo do exterior não há fluidez.
. Lá dentro, quando não há ninguém para xingar e culpar, vem a consciência falar: Sempre dependeu, e tão só, de ti mesmo. Hora de não fugir.
. Deseje bem a quem te quer bem; deseje bem a quem te quis ou quer mal. Só assim quebramos o ciclo vicioso.
. Depois que acaba o Faustão vem aquela "nhaca existencial" típica de domingo. "E amanhã? Quem eu sou? Que eu faço?"
. Quanto mais esperamos que algo aconteça, menores as chances de concretizar. Quando esquecemos, as melhores coisas acontecem. Felicidade é efeito colateral a realização de valores de vida
. Na poesia, a linha entre o maravilhoso e o pedante é extremamente fina, quase transparente.
. O caminho já é felicidade. Imagina se buscássemos a passividade, o tédio, a inanição.
. Como se iludir achando que mudou algo profundo em ti: Passar a fazer milhões de coisas -que raramente são- diferentes da mesma forma.
. Prefiro falar pessoal a galera, tudo bem a beleza, dinheiro a grana, dar uma volta a dar uma banda, comida a rango, onibus a bus... Sou muito ortodoxo?
. Não existe fofoca sem malícia ou isenta de maldade.
. Se as pessoas agissem com os amigos tal como agem em casal, muitos não teriam um único amigo.
. Ao caminhar é que refletimos e vivemos verdadeiramente. Correr é para quem tem pressa de se enganar.
. As melhores pesquisas são aquelas que tem como resultado a síntese de valores experienciais e os dados que o mundo nos entrega prontos
. Não se faz as verdades sem as exceções.
. Cuidar do outro dá muito mais trabalho que cuidar de si. Cuidar de si é receber de si - cuidar do outro é entrega
. Com a idade a feiúra é aprimorada.
. A criatividade dá a direção - o clichê a sustentação.
. O melhor tempero Deus já entregou pronto – sal.
. O que me conforta é que tenho muito a errar e evoluir. Se eu já tivesse cumprido a missão ou fosse perfeito, deveria ir embora.
. Muitas vezes as coisas que a vida leva embora ou que resolvemos deixar pelo caminho são bênçãos advindas da boa-vontade do coração.
. A profundidade enjoa fácil. O que me diverte são os horizontes onde os poços nunca alcançarão.
. Vendo uma pessoa sofrendo aqui ao meu lado eu sofro junto, ainda mais por amá-la. O que tento é diminuir o sofrimento. Mas isso é para quem ama. Há os que aproveitam a pessoa (já fragilizada) para destilar o ódio no soro, injetando maldade.
. Não existe gratidão maior que fazer dos erros do outro o maior motivo para continuar ao lado dela: ajudando-a, não a culpando.
. O coração do orgulhoso é imune a bondade. Mas isso não quer dizer que ele não sinta algo. Sente sim: Por ele mesmo. É aí que ele se acaba.
. Se viver em torno do próprio umbigo é arriscar, temos um suicida.
. Evolução é a mudança de um estado ou de uma maneira de ser para outro estado ou maneira de ser. Aquele que sabe que deve mudar, mas não quer, logicamente prefere estacionar, não evoluir. Outra chaga da humanidade.
. O movimento é o próprio combustível para a alma relativamente evoluída. A preguiça e ranço consigo próprio e com os outros é do espírito inferior.
. Ninguém perde alguém na vida. Só perde aquilo que se tem. Ninguém é propriedade.
. Não me cumprimentar não me incomoda mais. Se torna indiferente aquele que não doa nem o olhar.
. Sobrecarrega o corpo e o tempo do dia aquele que não suporta o peso mais leve e sutil que existe: Do próprio espírito.
. Dever a um bêbado é ajudá-lo a economizar aquilo que ele nunca conseguiria por si.
. Aquele que servisse mais saberia o quanto evolui, como efeito colateral, o próprio ser.
. Ao narcisista, arriscar ser diferente (mudar) é temor iminente de perder a única coisa que ele ama: O próprio Eu.
. Três grandes passos para viver bem: Fazer o que ama, ganhar o sustento com isso, não amar o dinheiro.
. Meu amigo, não existe recomeço, existe continuidade. A vida e o humano nunca findam para constituir um “novo começo” daquilo que não terminou.
. Descobrir é desespero. Desespera o que não conhece o seu eu e mergulhando em si, descobrindo-o, desespera por descobrí-lo tomado pelo desespero.
. Desespero é doença mortal. Desespero é o desespero querendo aniquilar o eu e não conseguindo, pelo eu ser eterno; adoece entre finito e infinito.
. A felicidade aparente é um dos maiores desesperos; ganha-se o social, financeiro, amoroso, arranca risos dos até então desconhecidos. Mas por dentro, quando o silêncio sereno se instala no quarto - quando não existe nada além de si mesmo -, começa a batalha mais árdua.
. Ali está o eu mordido e deteriorado pelo desespero. Porém ele não tem razão para desesperar. O eu é eterno e sempre pronto para mais desespero.
. Deus ordenou: Olhe para o espelho. - Após o homem ter obedecido, completou - Agora saiba: Tu não te enxergarias se não fosse o outro.
. Os deterministas e fatalistas carecem de possível. As banalidades lhes sãos mais saborosas que o crer. Vivem entretidos e embriagados no provável.
. A imaginação inexiste, não consegue se desvencilhar da gaiola feita por ele mesmo. É como o papagaio imitando o balbucio de consoantes do bebê. A criança seguirá, ele se debaterá, perdendo todas suas penas.
. Não conheço maneira mais humana de ajudar o outro que respeitar as limitações e confiar nele.
. Cada segundo que vem por aí é a maior oportunidade de silenciar a boca e fazer algo pelo coração. Começou! Passou um segundo. Mais um! ...
. A análise mais profunda não é a que acaba nela mesma; é a que chega ao horizonte.
.Quando nos fechamos para o mundo o mundo se fecha para nós.


