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04 abril, 2011

Entre a terra e o asfalto


Buzinas, burburinhos, carroceiros, ônibus jorrando fumaça, buzinas de motoboys e borboletas no asfalto são comuns na vida porto-alegrense. Temos os cortes de cabelo, vendem e compram ouro; picanha, alface, buchada, erva mate, suplementos alimentares e muito cheiro de peixe fresco - e não tão fresco; andamos entre bancos, praças, pichações, ratos-alados e alguns deputados; a poluição é grande na capital. “Vrum”, “bee”, “pof”, “crrrrri”, “rrrom ppppf”, exclama o trânsito. A multa é “caneteada” pelos azuizinhos e autuada em nossos ouvidos. Os restos dos habitantes vão parar nas bocas lúgubres dos mendigos esquecidos pela sociedade; esses deitam sobre os catarros e excrementos das calçadas. A vida na cidade é bela.

Temos necessidade dos tais grandes centros, onde há muito e pouco se encontram; encontramos muitas coisas, nos aproximamos pouco das pessoas. Não faço paralelos nem uso o interior como parâmetro para medir o quanto é bom ou ruim a cidade ou “as grota”, mas penso existir uma diferença entre viver na cidade e em lugares mais calmos, onde há menos anônimos e mais pessoas. Em lugares assim as pessoas estudam do jardim até o ensino médio juntas, aí partem para as faculdades da cidade. Passam anos convivendo, cultivando amizades próximas e verdadeiras, mas chega a hora de partir. O baque é grande nesse êxodo, tanto sentimentalmente como também na locomoção, transporte, tempo gasto no trânsito, valores gastos para se locomover. E aí está um grande paradoxo: As pessoas se movem muito, mas dificilmente saem da rotina do além-linha-de-ônibus/carro-estacionamento-casa-faculdade. Damos graças à Deus por chegar a sexta-feira, preparar o drink ou colocar aquela (!) cerveja no congelador (para “gelar” o mais rápido possível).

Já falei a algumas pessoas sobre o meu desejo de ir para o interior, de preferência a serra gaúcha, depois ter vivido a vida na cidade, constituído família, conquistado a independência financeira, as missões que devo cumprir como ser humano por aqui. Lá quero uma casa com piso de madeira, lareira, fogão à lenha, patos, galinhas, gansos, cachorros e gatos andando e fazendo barulho, agora no além-janela-vistadamontanha-árvores-cheirodeeucalipto. Terei uma janela com vista para as montanhas, eucaliptos, araucárias, cedros e cipós. Lá embaixo pode ter um Rio estreito e uma estradinha de terra onde só passa um carro ou uma carroça. Estarei velho; precisarei de um carro. Poderá ser um Gol 1000, equivalente a um Fusca nos nossos dias. A venda (armazém) pode ser longe; cinco ou dez quilômetros, tanto faz, terei bastante tempo. Precisarei somente de polenta, arroz, feijão, sabonetes, sabão, pasta de dente e sementes. Na horta planto alface, tempero verde, cebola, pimentão e tomate. Ali ao lado tem batata, milho, melancia e o arvoredo com laranjas, bergamotas e ameixas.

Parece sonho, mas um dia já tive isso e quero novamente. Quando tive, foi na infância e por toda a adolescência. Vivi entre cidade e fazenda, mas não refletia sobre o abismo que existe entre o asfalto e as porteiras de madeira cortada na própria fazenda. Os peixes eu mesmo pescava, a carne era dos bois que eu mesmo ajudava a tratar e curar. Os ovos eu apanhava ainda quente, recém saído da galinha. Queria uma laranja? Ia até o pé, arrancava e puxava da adaga e deixava as cascas ali mesmo, sem poluir nada. Jabuticaba tinha tanto que nem os passarinhos davam conta de comer. É uma vida mais próxima do natural.

Não citei a mulher. Será que a terei nessa idade? Quero ter filhos e, aliás, tenho a intuição que o primeiro será primeira. Quero educá-los o mais próximo possível de como a natureza os educaria. A sociedade e cidade ensinam muito, instruem muito, mas educam proporcionalmente ao contrário; quero ser pai, não instrutor ou mais um mero informador. Quero oferecer a terra para eles pisarem, os brinquedos de madeira para estragarem e os computadores para eles estudarem, se informarem e se comunicarem. Os livros estarão ao alcance e claro que tentarei mostrar e oferecer os que acredito serem da alma e de proveito para eles, mas não privarei de lerem supérfluo, até porque eles podem servir, inclusive, de parâmetro do que não ler. Não desejo que cuspam no chão nem dêem esmolas aos mendigos, mas que prefiram comprar comida e votar em pessoas que possam dar educação e instrução a essa pessoas; que meus filhos sejam solidários desde a raiz, como as das plantas que eu desejo cultivar.

Aqui pela cidade quero trazer um pouco da humanidade de cada pessoa, a naturalidade e espontaneidade de quem não tem vaidade a zelar. Não quero pessoas entre excrementos, escarros e carros baforando fumaças nelas. Quero comprar o que necessito sem que gritem em meus ouvidos como se estivessem em uma guerra para ver quem lucra mais ou conquista mais clientes. Quero que cada um tenha o seu canto, o seu espaço e esse espaço seja calmo, mesmo que na cidade. Desejo um dia ter uma vida calma, onde eu possa escrever coisas melhores que essas, sem ter janelas piscando; mas somente um minuano com eucalipto e o cheirinho da comida da nega véia subindo entre os frisos do assoalho.

23 fevereiro, 2011

O Nazismo e o Petismo - Duas formas semelhantes de governar


Sobre mim choverá críticas petrificadas, mas certamente em menor número comparado ao número de pessoas mortas pelos nazistas e de mentiras do PT.

Após ver o filme Arquitetura da Destruição comecei a elaborar um paralelo em minha cabeça. As táticas escolhidas por Hitler e o PT, suas escolhas, seus desejos e, claro, as conseqüências disso tudo.

O filme conta com muita clareza o material de propaganda e as idéias que foram propagadas. Hiel Hitler, como era chamado, era de um partido com a denominação muito semelhante ao que o nosso ex-presidente Lula se propunha: a causa dos trabalhadores. De um lado o Nazista pertencente ao Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, de outro o Petista com as mesmas bases socialistas e trabalhistas.

Todos sabem como fora a postura de Lula nas eleições que antecederam a sua vitória para a cadeira de presidente: radical e reacionário em todos os aspectos a respeito dos planos econômicos como Plano Real, política com FMI indo até o campo do salário mínimo e os benefícios como o "Bolsa Escola", o "Auxílio Gás" e o "Cartão Alimentação" que Fernando Henrique Cardoso criou. Aqui temos Lula falando da sua posição no presente e em 2000.

Hitler fez algo muito parecido, mas na ordem contrária. Primeiro lançou uma grande campanha pró-cultura, educação, aprofundando os investimentos em arte e em higiene da população (do ambiente de trabalho até as ruas e lares). Para ele, uma nação jamais pereceria tendo como bases uma cultura, educação e limpeza como nortes para todo o Estado. A propaganda utilizada era de cunho radical, não havia meio-termo. A raça ariana deveria ser a única, pois somente tendo uma raça pura, limpa e “saudável” é que a nação prosperaria. Os “loucos” que sofriam em asilos deveriam ser mortos, mas nas propagandas defendiam a “eutanásia”, pois aquelas eram “vidas sem esperanças”.

A propaganda nazista e petista é de cunho falacioso e em infinitos casos mentiroso. Hitler utilizou o dinheiro público para propagar as suas próprias idéias e obras; aqui no Brasil não é diferente: de janeiro a junho de 2010, a União desembolsou média de R$ 24,3 mi por mês contra R$ 12,3 mi dos três anos anteriores. Esse aumento não se deu, foi Lula que ordenou e ordenou esse aumento desproporcional aos feitos não pela necessidade do governo mostrar o quanto trabalhou, mas pelo ano eleitoral. Hitler plantou a idéia do Estado forte através da raça pura, da higiene, da educação e da família alemã; Lula, PT e todos os âmbitos do governo propagaram a idéia do “Presidente do povo”, “somente com Lula o Brasil ‘cresceu’” e mantras como “nunca antes na história deste país” fizeram o trabalho de transformar a dúvida e o questionamento que fundamentam a democracia em verdades absolutas. Questionar o presidente ou qualquer ação do governo era o mesmo que xingamentos pessoais. Da mesma forma aconteceu no III Reich, onde qualquer crítica ao governo e ao seu Presidente era vista como um ataque aos interesses do povo e do avanço da nação. Temos dois reis intocáveis lado a lado.

"A propaganda política busca imbuir o povo, como um todo, com uma doutrina... A propaganda para o público em geral funciona a partir do ponto de vista de uma idéia, e o prepara para quando da vitória daquela opinião". Adolf Hitler escreveu tais palavras em 1926, em seu livro Mein Kampf publica o Museu da Memória do Holocausto. A presidenta Dilma tomou uma postura mais branda e a favor da mídia após o Lula ter acusado abertamente a imprensa de criar “factóides” e “ataques midiáticos” ao questionar sua postura em dezenas de inaugurações e eventos onde usava do espaço público para fazer campanha para sua candidata Dilma. O TRE multou Lula por mais de dez vezes. Um presidente utilizando o espaço público e o dinheiro público (transporte de toda equipe e assessores, logística e marketing no local do evento, etc.) para beneficiar a candidatura de um elemento do seu partido. O real desejo é somente um: Poder.

Essas posturas são dignas do ditador austríaco que venho referindo neste texto, mas pode ser também de outras figuras contemporâneas; citando alguns exemplos do vizinho como Hugo Chávez há quase 14 anos no poder matando e exterminando toda a qualquer força contrária a sua gana por poder; Mahmoud Ahmadinejad, presidente do Irã, com a mesma força, mas de forma mais brutal e em maior número de mortes; Muammar Abu Minyar al-Gaddafi, primeiro-ministro da Líbia que está prestes a cair junto do presidente do Egito. Entre os que estão cegos pelo poder não há o que impeça as suas ações; são capazes de tudo, mentir e espalhar a falácia é o que menos agride o corpo, mas extermina toda legitimidade e qualquer forma de regime democrático – o poder não é do povo eatravés dele; não se dá através da virtude, mas da mentira e da falácia.

O termo “eutanásia” era para designar o extermínio das “pragas” contrárias aos ideais do governo. Os judeus, negros e loucos – dentro outros tantos etnias – não eram contrários ao regime do Estado, portanto, não eram inimigos do bem-comum nem desejavam o mal da Alemanha; eram civis, cidadãos médios que viviam naquele país pagando seus impostos e trabalhando junto de todos os irmãos de outras “raças”. Após prender o judeu, órgãos do governo enviavam uma carta à residência do indivíduo contendo a mensagem de que ele fora para um campo de repouso onde seria curado de sua doença. Pouco tempo depois chegava outra correspondência dizendo que o “doente” permanecia em repouso. Por último, para o desespero de toda família, chegava a carta contendo a informação de que o pai da família não resistiu e morreu. Não havia explicações, as assinaturas supostamente do próprio presidente era falsificada e todo conteúdo era falacioso. O campo não era de repouso, mas de extermínio (tiro na cabeça ou câmara de gás); a única doença existente era de ser “judeu”; o indivíduo realmente havia morrido, mas há muito tempo e por uma causa não tendo a ver com doença.

Vivemos em um país onde a falácia reina. As cartas que recebemos vem em forma de imagens, sons e pronunciamentos veementes. Lula e PT se confunde de tal forma que muitos acreditam que o partido não existiria mais se não houvesse uma figura que segurasse todas os casos de corrupção. Mensalão foi somente um dos casos onde o presidente mentiu: “Eu não sei de nada”. Antônio Palocci, ex-chefe da Casa Civil, braço direito do presidente, renunciou ao cargo por denúncias de propina beneficiando donos de bingos; José Dirceu ex-chefe da casa Civil acusado pelo delegado da Polícia Federal de ser o chefe da quadrilha do Mensalão; Erenice Guerra, ex-chefe da Casa Civil, à beira das eleições presidenciais, foi exonerada do cargo por processos do Ministério Público onde a acusa de tráfico de influência para beneficiar grupos privados em contratos juntos a empresas e órgãos públicos.

A máquina pública, em ambos os casos (Nazismo e Petismo), está a favor do poder de meia dúzia de milionários, de poder dos companheiros, do extermínio da mídia, e principalmente da oposição.

Se alguém não lembra, aqui está o vídeo onde o presidente com maior popularidade da história do país diz “Precisamos extirpar o DEM da política brasileira”. Ao lado está toda a atual presidente do país batendo palmas. O que temos em comum entre Nazismo e Petismo? Um tirano, déspota, ganancioso e mentiroso. Nos dois casos são capazes de tudo, como já fizeram. Lembram do prefeito de Santo André?

De um lado um chefe que exterminou e matou milhares de pessoas, de outro um presidente “negligenciador”, dizendo que o país cresceu como nunca, após anos de críticas ao governo que antecedeu o seu, deixando um país falido, com um rombo de 50 bilhões para sua “escolhida” dar conta. Temos 70% de analfabetos funcionais, milhares de pessoas morrendo das filas de transplante (minha mãe morreu na última sexta-feira, 18 de fevereiro por estar há 5 anos da fila do transplante de fígado), cidades como Porto Alegre que não tem uma inauguração de hospital federal há mais de 30 anos, milhares de pessoas dependendo de uma bolsa família que dá a miséria média de R$ 70/mês. A negligência fez com que ele, em 2008, vetasse verbas para o mapeamento e prevenção de desastres naturais. Resultado: em números reais, tivemos mais de 1000 pessoas mortas nos desabamentos do Rio. Milhares de pessoas não receberão a ajuda do governo, tal como as vítimas catarinenses dessa mesma causa.

A política mata. O chefe é capaz de matar dando ordens ou negligenciando-as. A mentira só leva os tiranos ao poder porque o povo acredita nela. O povo alemão acreditou, o povo brasileiro também. Temos mais 4 anos desse poder, totalizando 12 anos. Povo brasileiro, prepare-se para mais Petismo, mais mortes, mais ignorância e muito mais mentira.

Um chefe que mente não é legítimo; o povo que elege a mentira é louco - loucura não legitima; um chefe ilegítimo e um povo louco constitui uma democracia?

Aqui tento dar um norte para um revolução silenciosa, verdadeira, sem alarde e caos.

17 janeiro, 2011

Que é felicidade?

Se a felicidade é reduzida a certas drogas, tome-as e seja feliz. O fato é que remédio algum é feliz ou torna alguém feliz. Ele pode auxiliar o corpo a manter relativo equilibrio químico, nada mais.

O tema "Felicidade" é amplo e com diversas visões. A minha é de que felicidade não se conquista, não se compra, não se rouba. Felicidade, segundo creio, não é uma criação da mente, não é mera abstração, não é nenhuma homeostase do corpo tampouco da mente. Felicidade é o desenvolvimento, nossas ações e realizações dos nossos valores de vida, ser humano, Deus. Felicidade não se alcança nem se chega como se fosse ter chegado ao cume. Felicidade é o próprio caminho da vida. Ao caminhar já podemos ser felizes. Felicidade é ter um sentido para viver e realizá-lo. Não é possível dar sentido a vida, mas encontrá-lo e nunca estará em nós mesmos; isso é orgulho, egoísmo, narcisismo. Podemos encontrar sentido no sofrimento, na culpa, na morte, nos problemas diários, ao ajudar alguém, ao cuidar de alguém próximo ou não, realizando uma atividade, construindo algo que seja útil principalmente aos outros, oferecendo uma obra proveniente do nosso intelectual, científico, sentimental...

Quando mais se busca a felicidade, mais erramos o alvo, a meta. Felicidade só existe verdadeiramente como efeito colateral as nossas realizações, não como objetivo principal e único na vida.

"E onde a sorte há de te levar / Saiba, o caminho é o fim, mais que chegar" Rodrigo Amarante

23 dezembro, 2010

Sobre um moribundo, desgraçado e vencedor – Agradecimentos, perdões e pedidos

Após ter meditado, venho a esse teclado para fazer alguns registros sobre minhas vivências. Que eu consiga me expressar!

Aprendi no colégio - onde tive forte educação religiosa - que ao conversar com Deus a gente comece agradecendo, tentando conversar francamente com Ele. Agradeça, pois é o que mais devemos fazer pelas oportunidades de, através da vida, se melhorar, fazer o bem do outro e cumprir os desígnios que Ele me confiou. Mesmo que tu não acredites em Deus, que Ele deva ser chamado simploriamente de ele, creio que a parte de agradecer, se melhorar e fazer o bem aos outros é válida aos ateus, céticos, agnósticos ou qualquer denominação designada ao descrédito para com o tal Altíssimo. Como isso aqui não é uma oração, sigo somente a estrutura

Obrigado a todos que me infernizaram nessa vida, a todos que me humilharam! Agradeço especialmente aos que sentiram ódio e, com algum plus, vos digo que se me fosse possível nesse exato momento, eu lhes daria um enorme abraço sincero! Sei que muitos me acham chatíssimo e sentenciam que o Ivan É até repugnante; obrigado por esse “desapreço” e asco que sentiu e/ou ainda sente por mim. Os ataques a minha personalidade, aos meus valores, ao que sou, junto das tentativas de bombardeio e até as agressões físicas, a mim foram e continuam sendo de grande valia. Em todas as vezes que fui odiado, recebendo os piores desejos, inclusive o de minha morte seja por doença ou por suicídio, saiba que na ocasião registrei, continua em minha memória e já fora tratado de ser transformado em algo bom em minha alma; desejo de morte ao desejo de vida. Tenho a maior gratidão por todos esses desejos, mesmo que tão negativos, mortais, configurando pecados e erros; volto a agradecer de todo coração. Devo gratidão a cada frase proferida com o intuito de me fazer fraquejar, passar a não acreditar em mim mesmo, deixar de fazer o que amo. Saiba que cada injustiça que deva ter tido comigo está devidamente gravada e durante meus pensamentos, sonhos e afazeres simples, acabo triste, mas com esperança. De outras mil coisas que não tenha rememorado, prometo agradecer em pensamentos e, se um dia lembrar e tiver a oportunidade de agradecer, assim farei. Mas... existe a segunda etapa, talvez a que eu deva ter demorado mais para desenvolver, fazer com sinceridade, serenidade e que ainda devo evoluir: Pedir o perdão.

Atualmente o que tenho sonhado, lembrado e vivido são memórias de eu sendo culpado, errando e sendo apedrejado. Se existe algo que eu deva clamar, é por desculpas e perdão! Já traí, ataquei, menti. Omiti, fui orgulhoso, não assumi erros evidentes e ainda me julgava vítima. Calei quando precisava me abrir, falei as piores coisas quando o que mais precisava era do silencio esclarecedor e pacífico. Cansei quando estava com todas as energias, desisti quando o que precisava era esperança. Peço perdão. Minha alma convulsiona e se debate de joelhos, em preces e lágrimas. Devo inclinar-me e esperar o teu toque misericordioso ou o teu machado adentrando meu crânio ou minha quarta vértebra; aceito. De todo o ódio que tive, peço todo perdão. Quando agi por egoísmo, negando a existência do outro, sei que tentei te destruir ao ignorar tua alma. A isso devo me curvar e oferecer-lhe minhas mãos a palmatória, meus joelhos ao milho debulhado e a surra moral que já começou durante cada palavra orgulhosa, em todos os olhares envenenados e quando preferi encher-me de raiva, esquecendo das mil alternativas que o amor daria; enquanto o orgulho encerra todos os caminhos, o amor abre clareiras em números que nenhum satélite precisará. Culpo-me e corrôo-me. Existe a terceira “oportunidade” de “conversa”: Pedidos e desejos.

Como tentei ser verdadeiro em minhas piores faces, admitindo o que já me destruiu e o quanto já destruí, sinto que também tenha o direito e dever de pedir humildemente algumas coisas. Meu maior desejo é que continuem e repitam tudo que já me fizeram e que me perdoem pelo que fiz. Entretanto, que em algum grau e dentro de alguma possibilidade das vossas almas, se preocupem em serem justos, bondosos e gratos. O princípio do justo é o bem e a gratidão. Duas coisas vem de somente uma fonte: O amor pela verdade e/ou pelo outro. Sejam mais bondosos comigo e com os outros, ao menos tentem ser mais justos. Peça-me uma desculpa que eu te darei um abraço, um silencio bondoso e um aperto de mão de amigo preocupado com a culpa que te corrói, seja pela tua culpa ou pela mágoa que causei. Venha a mim ou abre-te quando me vir caminhando da tua direção; certamente te olharei nos olhos, direi tudo que for da alma e for possível. Não caçoe de mim pelas costas, pois saiba que se divertir na covardia é autorizar o próprio plano funerário e começar a pagar com a própria falta de moral. Não faça o que tu não gostarias que eu voltasse a fazer. Tenha consciência que nenhum erro que admiti ter cometido, em ti nunca existiu. O ser humano é igual em capacidade de errar, mas possui infinito potencial para acertar; muitas vezes não passa de potencial, pois ele, por si, escolhe não superar o que tanto lhe faz mal ou agride outros. Tira esse peso das costas e atue através da leveza da bondade. Lembra que orgulho e egoísmo é o extremo oposto do amor. Se o orgulho fere teu olho esquerdo, e o egoísmo arranca a vista direita, te causando a cegueira, lembra que existe outra possibilidade, que mesmo sendo a mais difícil de aniquilar, constitui da maior vitória que uma pessoa pode ter: Superar a si e exterminar as chagas que assolam e dão vazão a todos os males que acontecem na Terra, começando do próprio coração.

Se te parecer pedante, esquece o que falei. Muitas vezes o pedante é o que não damos conta de assimilar e o que nossa consciência não está acostumada a experimentar. “Como assim, o cara se abre, coloca as piores coisas da vida dele e ainda pede perdão?! Num blog! Coloca na internet! De forma aparentemente gratuita! Do nada! É um doente mental, um falso-profeta-quase-crente!”. Se pareceu assim, desculpa. Mas saiba que não inventei erro, nenhuma linha de desculpas e, sinceramente, pedi que continuassem a me atacar, inclusive expressando o nojo por ter achado pedante.

É com a dor que aprendo a combatê-la. A culpa é que me impulsiona a não repetir. Pedindo perdão e assumindo o quanto erro é que começo a esmagar, mesmo dolorosamente, meu orgulho que cega meu espírito. Cada ataque a quem sou é uma sensibilidade que me causa, fazendo-me até estremecer de raiva, mas causando o que chamo de transformação da experiência negativa em futuras atitudes positivas. Ao me atacar de forma negativa, raivosa, orgulhosa e – talvez - injusta, tu fazes a ocasião e oportunidade perfeita para eu desenvolver a serenidade, a reação positiva, a compreensão, a justiça (advinda desses atributos citados) e principalmente a capacidade de te ouvir ao criticar, possibilitando uma pessoa diferente da que sou, caso eu tome alguma atitude positiva diante da crítica construtiva ou do ataque maldoso. A quem não acredita que as pessoas mudam, continuam exatamente iguais, onde a “essência” é a mesma, imutável, e “bicho ruim não morre”, expresso minha solidariedade semelhante a que teria em um velório: Não há consolo possível. Somente o tempo ajudará a ver que a vida da própria pessoa cuida de mostrar a mudança diária e que a essência não é rígida, uniforme, eternamente imutável e intocável pelas leis da natureza evolutiva, fazendo-a acima das leis, como se fosse o Criador delas.

Atacar com maldade é como bombardear a cidade, destruir o inimigo, que muitas vezes é o único provedor das necessidades do povo, e deixar esses civis sem assistência. Critique-me com bondade, mostrando um caminho, uma qualidade que posso melhorar, incentivando futuros acertos, mas, sobretudo, acreditando que sou digno de bondade e respeito porque assim também considero a ti e qualquer ser humano.

Que esse natal seja muito mais que um ritual, dogma e consumismo. Que o próximo ano seja mais leve para ti, para mim, para todos os errantes e todos os edificadores de si e do outro. É com um sorriso que chego a esse ponto final.

07 dezembro, 2010

A Professora

Conversando ontem pela manhã com uma professora - que também é diretora -, em um colégio renomado da rede pública do estado do Rio Grande do Sul, me deparo com o retrato da dor, da confusão e do vício da educação. Fui até o colégio no intuito de procurar um lugar para trabalhar meus pensamentos e colocar em prática tudo que aprendi na psicologia, filosofia e na própria pele quando ainda era estudante colegial. Servir é dos sentidos da minha vida e pelo qual vivo. Então vamos lá.

Com muita certeza me deparei com uma professora que um dia sonhou em dar aula para crianças, ensiná-las e ganhar sua vida com isso; se constitui assim um bom exemplo de pessoa que tem um sentido baseado em valores do ensinar, instruir, e no ajudar o florescimento de um cidadão digno. Existem os valores, mas existe algo além disso: A remuneração (dinheiro), o ambiente de trabalho (estrutura física, recursos, relações entre colegas e alunos), relação com o Estado (sentimentos e políticas com relação ao seu “chefe” mantenedor das suas necessidades), sua visão sobre o seu papel na sociedade e senso de responsabilidade frente as dificuldades que o país enfrenta; dentre outras questões que abordarei em outra oportunidade. Como o professor vive essas questões que abordei acima? Como ele analisa? Que atitudes ele toma?

Uma funcionária, com certa idade, trajando um vestido leve e calçando um de nossos chinelos populares, atendeu-me prontamente - se não fosse pela fachada bonita e pelo prédio imponente, jurei que me serviriam um café e um chimarrão -; a funcionária parecia estar em casa, não em um colégio. Fui esquecido por alguns momentos em um corredor, o que me possibilitou observar o ambiente e as pessoas sem que minha observação interferisse no que acontecia e em como se portavam. Esperei por alguns momentos. Tentei descobrir, através dos trejeitos, qual daquelas mulheres era a diretora com quem eu falaria. Tendo em vista o desleixo, pensei que qualquer uma daquelas senhoras poderia ser a diretora, mas enganei-me: A que menos aparentava estar à vontade, com um ar de preocupação, aproximou-se de mim e perguntou meu nome. Respondi e expliquei as minhas intenções. Indagou sobre o que poderia um profissional da psicologia fazer no colégio. A dúvida que estava em looping no pensamento dela era se eu queria dar aulas de psicologia, seguida de “mas tu achas que dá pra trabalhar com o ensino médio? Tu podes fazer com o ensino técnico”. Expliquei que posso trabalhar o âmbito institucional; as metodologias de ensino; as relações de pais <-> professores, aluno <-> professor, professores <-> professores, colégio <-> sociedade; fazer grupos de alunos, professores, pais; dar palestras sobre assuntos de interesse deles ligados a psicologia. Abri um leque que foi além do que acabo de falar. Fui interrompido com olhos piscando rapidamente, cabeças balançando de um lado para outro, e um rosto de desaprovação. “Tu não vais conseguir fazer isso. Acho que tu deves focar mais em alguma coisa, fazer algo pontual, nos entregar (um projeto) que daí a gente vê se aprova ou não”. Logo pensei em como seria um jogador de futebol sem uma perna ou um lutador de boxe tendo um cotoco ao invés de um braço; seria eu um psicólogo escolar que esquece a imensidão de fatores que constitui um colégio, um “capenga”.

Logo se aproximou uma moça no momento em que falei sobre minha vontade de fazer um trabalho quanto a instigar o pensamento político nos jovens. Cabeça, olhos e corpo ficaram inertes e atenciosos. Creio ter atingido o que mais incomoda e o que mais estimula aquela professora. Começou a relatar o descaso dos alunos com relação à política, a pouca importância que tem a política na vida dos jovens, citou exemplos de colegas professores que afirmaram ter votado na atual governadora Yeda Crusius... Nesse momento esperei um surto psicótico ou uma crise conversiva. Vi muita raiva e indignação com os que parecem ser seus adversários. “E tu, votou na Yeda?”, respondi que sim, mesmo sabendo que viria o discurso viciado, enjoado e cheio de bordões, típicos de sindicalista mais preocupado com o caminhão de som à sua disposição e ao alarde na praça pública do que a conversar com calma, serenidade e maturidade. “Vocês sabem o que ela (governadora) fez?”, continuando, “Tentou acabar com o nosso plano de carreira, não aumentou nosso salário e ainda tentou aprovar a meritocracia!”. Ouvi pacientemente e assentindo com a cabeça.

Como vimos, durante o processo do último e penúltimo ano, o governo tentou, sim, aumentar os salários dos professores do Rio Grande do Sul. Propôs um aumento que poderia ser de até 60% sobre o salário atual de R$950, a implementação de uma espécie de 14º salário correspondente a gratificação pelo cumprimento de metas, reestruturação do plano de carreira e gratificações por qualificação que o servidor tiver feito. O Sindicato da categoria alega não receber informações quanto às mudanças. Mesmo que isso fosse verdade, por não haver comunicação entre o governo e sindicato, existe mais de 6 jornais de grande circulação, 10 rádios que noticiam assuntos políticos, portais na internet e outros tantos meios da informação do governo chegar aos professores e, principalmente, ao sindicato.

De um lado o Estado rígido, abalado, com dificuldades financeiras e saindo de grandes períodos de gestões péssimas - que, inclusive, não pagavam esse salário mínguo em dia - de outro, professores cansados, esquecidos pelos mesmos partidos, esfomeados pelo poder, que dominam o seu próprio sindicato, e tendo de ensinar, formar cidadãos e passar dificuldades no seu sustento. Após tanto desabafo, expressei a ela que o professor deveria ganhar mais que um médico: “O médico salva vidas, cura doenças, mas é o professor que ajuda a florescer as plantas e tem a responsabilidade de instigar a mudança dentro das pessoas que eles ensinam”. De um tsunami passamos a um balanço da praça. Após ver que a senhora se acalmou, falei sobre o artigo que escrevi há pouco tempo sobre o modelo de Estado que o filósofo francês Jean-Jacques Rousseau propôs, a comparação que faço com o quadro atual, e o “instrumental” dado por autores da psicologia, pedagogia, filosofia trazidos por Carl Rogers e Viktor Frankl, mostrando querer aplicar diariamente no trabalho junto ao colégio. Vi interesse nos seus olhos. Me convidou para vir durante a tarde, pois o professor de filosofia poderia se interessar pelo meu trabalho.

Vi um piso com buracos, mesas riscadas, computadores antigos, teias de aranha em luminárias queimadas, alunos falando alto com a displicência de adolescente, mas obviamente o que mais me impactou foi a professora tão amargurada e soterrada sob suas próprias dores. Que atitudes essa professora e tantos outros tem em sala de aula? Que visão tem dos alunos? Que espécie de ambiente eles proporcionam aos alunos trazendo essa dor e essa indignação, muitas vezes deturpada e carregada de preconceitos? Será que ela mesma não está no olho do furacão, no lugar mais apropriado a mudança, sendo ela a mais responsável por instigar e possibilitar novos rumos ao Estado que ela tanto reclama, e com razão? Trará algo de novo um estagiário de psicologia? Conseguirá adentrar corações amargurados?

Creio ao menos tentar instigar perguntas no único lugar de onde provêm as mudanças: No íntimo das pessoas. Alcançar o espírito das instituições constituídas por pessoas dignas de respeito, mesmo que muitas vezes mostrando suas feridas e propondo curativos. Mesmo que eu não trabalhe nesse colégio, espero ter plantado alguma coisa na conversa.

Ah! Pela tarde fui ao colégio e conversei com o professor Davi. Estou para dizer que a conversa foi bem diferente da manhã. Sempre acabo os textos e os meus dias com alguma esperança.

17 novembro, 2010

Ler é chato ou a nossa cultura que é?


Confesso não lembrar qual obra literária e quanto tempo faz que li um livro de ficção. Escrevo bastante sobre meus pensamentos quanto à política, ética, valores, sobre autores da psicologia, filosofia, procurando trazer para o presente e transformando em algo factível. Escrevo poesia há um tempo e contos desde que procurei a disciplina de Escrita Criativa do escritor Charles Kiefer. De lá pra cá tenho me sensibilizado quanto à prática da escrita. Ler que é bom, nada; somente os contos dos colegas da Oficina de Criação Literária, a qual estou cursando. De onde vem essa minha aversão? É aversão? Creio que não. Amo escrever, gosto muito dos textos dos colegas, mas nada além disso. Ouço falar de vários escritores de contos e romances, porém, nada de procurá-los. Como ser escritor e não ler?

Mais uma vez a historinha da escola, professor, aluno e livros que nos fazem ler. Lemos Iracema, Dom Casmurro, Memórias de um sargento de milícias... Confesso que acabo de consultar o Google porque nem os nomes dos livros me vem a memória, quanto mais a história, tampouco o sentido de cada uma. É esse o ponto que quero chegar: O sentido. Ou melhor (pior): a falta dele. Em 2005, segundo pesquisa do Ibope, “75% dos brasileiros apresentam muita dificuldade ou nenhuma habilidade na leitura e na escrita” – sendo maioria analfabetos funcionais. O sujeito lê uma frase, um parágrafo, ou um texto, mesmo que curto, mas não encontra um sentido nele. As explicações para isso são muitas. Problemas cognitivos, falta de atenção, hiperatividade (no caso de crianças), falta de motivação, assuntos complexos; explicações proporcionais a capacidade de leitura dos brasileiros. As crianças não são instigadas a ter gosto pela leitura. São obrigadas a ler livros cânones onde o assunto e a complexidade da linguagem é complexíssima. Os professores enfrentam dificuldades para encontrar o meio-termo, pedindo que seus alunos leiam os gêneros da moda ou a literatura “rasa”. De um lado temos o inatingível, por não terem bagagem que dê condições de alcançar o entendimento da linguagem; de outro, a “literatura pronta” com o descartável que pouco instigará os miolos juvenis. Não se obriga a ter prazer por qualquer forma de arte, nem a amar alguém.

Vivemos a cultura do vazio. Antes a família dava valores fortes e vivíamos - em muitos casos – oprimidos, mas tínhamos um norte. A cultura daquela época tinha costumes e práticas bem delineadas que iam do estilo de se vestir até a forma que devíamos nos portar à mesa. Hoje temos o outro extremo – novamente ele. Procuramos o pronto, ou semi-pronto. Não é à toa que os fast foods e as lojas de conveniências são as preferências. Nossas preferências hoje são reflexos da alma cultural que vivemos. Como diz o russo Viktor Chklovski, a verdadeira literatura é aquela que causa estranhamento –ostranenie- e não um simplório reconhecimento do objeto artístico ao se encaixar nos conceitos que o sujeito traz consigo. O papel da arte é fazer com que a obra se prolongue dentro da pessoa e, por conseqüência da ostranenie, incite novas relações que o sujeito fará com o mundo e a própria arte. A literatura cânone é distante do entendimento dos nossos jovens que estão na escola; o superficial, trazido pelas palavras rasas, não causa o estranhamento que possibilitaria novas posturas. Que esses livros sirvam como mochinhos antigos para ajudar-nos a alcançar os livros mais altos da estante. Façamos da leitura algo que nos instigue a encontrar novos sentidos e formas de pensar, agir, e até votar.

Logo mais irei até minha estante e procurarei algum romance filosófico. Vamos aos poucos que é para não assustar meus costumes.

27 julho, 2010

Por uma educação mais humana e positiva

Não sei o quanto é polêmico o assunto sobre a proibição das palmadas, se é que é motivo de polêmica, mas tentarei delinear os meus pensamentos e visões de maneira mais profunda.

A proibição através de uma lei, como a criação de qualquer nova lei, é somente conseqüência de uma nova forma de pensar que antes talvez não se cogitasse aderir. A proibição é a forma mais drástica de tentar alertar ou educar alguém. Se ela existe é porque os limites foram ultrapassados e muitos sofreram devido à quebra dos limites que, por sua vez, feriram e prejudicaram o direito de integridade de outro. Se prender somente a conseqüência é elevar a ignorância e, caso divulgue, passa a ser ato de crueldade. Dizer ao teu filho que não deve colocar o dedo na tomada sem explicar o porquê (causa do alerta) é tentar aprisioná-lo na própria presunção de que o que eu penso é melhor pra ele e ponto final. Se é que isso acontece, pois existem os casos de sadismo puro em querer proibir tudo. Aí é que está o detalhe sutil: há diferença entre mostrar e propor explicando que se tocar a tomada ele poderá ter a conseqüência de levar um choque, e proibir sem dar explicação alguma. Sinto isso como uma agressão, pior que a de levar o choque literal, pois a vida mais tarde mostrará de maneira punitiva ao que não pensou na causa.

Punir não é nem de longe a única maneira de exercer um papel de educador, mas isso parte da visão de ser humano que este tem. O que confia no ser humano como merecedor de confiança e vê que ele, por si, é capaz de compreender* e ser responsável é aquele que trata o outro de forma mais humana em seu sentido mais profundo. O maior respeito que se pode ter por alguém é confiando que ele é capaz de aprender e ser responsável pelas suas ações. E saiba: qualquer relação baseada nessa premissa tem um reflexo muito positivo para todas as pessoas. Sugiro que se aprofundem acerca dos preceitos da Lei de Causa e Efeito, pois ela nos mostra o quanto nossas atitudes interferem em nós mesmos e na vida de outras pessoas. Se trato alguém de forma mais aberta, confiante no potencial de compreensão do outro, também sendo coerente com os meus valores e levando em consideração os valores do outro, tendemos a colher o reflexo positivo nos olhos, no coração e no comportamento do outro. Se dermos uma palmada hoje, é porque não confiamos no único ser terrestre detentor do poder da fala, da razão e da consciência de si e do mundo. Negar esse poder no outro ser humano é negar esse poder em si porque, logicamente, sou um ser humano.

Gostei de uma frase ouvida cujas palavras fazem analogias perfeitas com meus pensamentos: “o cavalo dá patada porque não sabe falar”. Creio que o pai ou educador que tenta educar a criança através do físico é o que mais necessita de educação tanto no comportamento quanto na forma de ver e respeitar uma pessoa, que no caso, é frágil e indefesa contra danos físicos. Adaptei uma frase bíblica para delinear o que penso: “dê ao corpo o que é do corpo, e dê a alma o que pertence a alma”. Através da dor corpórea não mostramos moralmente à mente (alma) que algo está errado. Ao contrário! deturpamos através de um ato, já contraditório, o que não devemos fazer para que sejamos compreendidos, caso seja essa a intenção ao bater. Muitos casos têm sua causa no egoísmo e na falta de capacidade em respeitar que a criança, ou até mesmo um adulto, tem uma idéia que pode ser diferente. A criança pode criar seu próprio mundo construindo a sua forma de lidar com a vida tal como um adulto, da sua forma, no seu tempo e com a sua capacidade.

Há diversas escolas, dentre elas a Escola da Ponte localizada na cidade do Porto, em Portugal, e a Summerhill School, na Inglaterra, que primam pela liberdade e responsabilidade total do aluno sobre como ele quer e os meios que ele acha mais apropriado ou que se identifique mais para aprender. Ensinar nessa “metodologia” centrada no aluno é diferente do infinitivo latino insignare que emite a idéia de dar significado ao que o outro presencia. A forma se diferencia pelo fato da própria pessoa assinar a sua impressão do que estuda. Ela dá o seu significado que mais se aproxima do que ela pensa sobre determinado assunto. Dessa forma ela se torna mais confiante e criativa diante das diversas vivências, vive de forma mais profunda os conteúdos aproximando da sua vida assuntos que vão da física linear aos processos de metabolização das mitocôndrias aplicando, por exemplo, o processamento de energia que ela gasta em determinados assuntos e atividades. A pessoa melhor se apropria se aquilo que é visto é próximo do seu mundo.

As crianças e todos os seres humanos são dignos de confiança. Não precisamos utilizar de meios pré-históricos para nos fazer entender. Não é pelo medo de apanhar de hoje que o adulto de amanhã se tornará responsável por se preocupar com as conseqüências para a própria vida e a do outro. A cultura e a pseudo-educação do medo devem ser deixadas para trás para dar lugar à forma mais positiva de educar e transmitir valores morais; comecemos sendo agentes tendo atitudes coerentes com pessoa de boa moral e amemos os que devem ser amados tal como gostaríamos que fôssemos.


*Compreender, num sentido mais profundo, vai além do “entender” onde podemos ouvir ou presenciar o conteúdo contido na fala. A compreensão vai de encontro essencial com o outro, numa tentativa de que, em algum nível, eu também viva, pelo menos em alguns instantes, o que o outro quer expressar e o que a outra pessoa vive.