24 novembro, 2008

O Pensamento Niilista na Forma de Vivenciar o Mundo

9 de outubro de 2008 – 02h24

Um fenômeno freqüente que acontece diariamente tem tocado bastante a vida de muitas pessoas neste mundo. Há alguma coisa aparentemente inexplicável do ponto de vista de quem vivencia este fenômeno. Algumas pessoas chegam a chamá-lo de “surreal”, “inevitável”, “doloroso” até chegando a outros termos que logo mais presenciaremos.

Indivíduos são bombardeados por situações negativas em diversas ocasiões. Através dos meios de comunicação presenciam a catástrofes, guerras, mortes, aumento de taxas –já abusivas-, quadrilhas e cartéis sendo descobertas e muitas situações que existem onde vivemos. Estas mesmas pessoas podem ver o lado de fora, mas elas também podem ver si mesmas tantas ou mais aspectos negativos. Diante das circunstâncias que a vida já pode ter se encarregado de descarrilar rumo ao abismo, o baixar dos ombros, o entregar da própria vida ao acaso e a reafirmação para si mesmas que a vida talvez não valha a pena de ser vivida, pode desencadear o que chamo de “Retroalimentação Niilista”.

Para determinada pessoa, experienciar situações negativas que a vida apresenta já pode servir para o desenrolar do fio da angústia. Diante disto imagine essa mesma pessoa já tendo intrinsecamente que “a vida é uma droga mesmo”, “sofrer é inevitável porque não posso mudar o destino que a vida me deu”, “mereço sofrer mesmo”, “prefiro morrer do que existir”. Esta pessoa não consegue enxergar, tampouco planejar um possível futuro frutífero, prazeroso e positivo do ponto de vista existencial. Há uma falta de repertório no seu estojo de ferramentas para lidar com as circunstâncias, há uma distorção na percepção, mas principalmente há um sentido niilista na forma de experienciar a vida.

Retroalimentar pode ser exemplificado pelo papel que o alternador tem. A bateria do carro serve para armazenar energia e gerar uma faísca, esta faísca faz o motor funcionar, o motor está ligado ao alternador através de uma correia que, por sua vez, gera energia que é armazenada pela bateria. Todo esse processo de retroalimentação acontece de forma parecida no indivíduo com pensamento niilista. Exemplo disso pode ser dado através de um pensamento de retroalimentação niilista:
-O mundo está irremediavelmente destinado a perecer em meio ao pó levantado por todas essas pessoas a minha volta. Não posso ajudar em nada. Toda essa poeira não tem como se dissipar.
Pensando especificamente neste exemplo, tentando levantar alternativas para um futuro melhor: de certa forma, a curto prazo, o mundo não tem como mudar e talvez nunca venha a ser o que fora um dia, mas de alguma forma contribuir para que ele seja um lugar mais negativo de se viver deixando de acreditar que algo pode ser feito, pode ser muito fortemente de origem do próprio indivíduo. Antes mesmo de desistir do mundo, este desistiu de si mesmo. Enquanto este desiste, milhares de outras pessoas fazem uma pequena diferença em cada parcela de vida existente no cosmos; seja criando e organizando grupos para proteger a floresta amazônica ou fazendo uma campanha para arrecadar agasalhos que, pode até ser pequeno diante d’um mundo “catastrófico”, mas para alguém vai mostrar a diferença entre viver e morrer no frio.
No mundo niilista interno existem muitas frustrações que podem ser carimbadas por acasos, fatalidades, falta de habilidade em alguma área da vida ou até mesmo advinda da morte. A vontade de viver pode diminuir catastroficamente ou até mesmo acabar. Mas do meu ponto de vista nada está acabado, até mesmo se alguém desistir de implorar por um alento de vida; até porque é aí que mora o sentimento e os pensamentos niilistas: na falta de sentido do sofrimento, na distorção da percepção de mundo tanto externo quanto interno, nos percalços e nas questões levantadas acima. O marceneiro pode usar sempre o mesmo serrote e o martelo, mas sem esquecer que existe algo além do lidar com a madeira.

Aquele que tem essa visão e essa conduta de enfrentar as coisas de forma muito negativa tende a tentar confirmar o que pensa. Assim, para um melhor entendimento, adoto o termo “auto-sabotagem” para nomear este fenômeno interno. Ele, sem querer ou até mesmo sem dar conta, tende a mostrar para si mesmo e para o mundo que as coisas não dão certo. Pensar que não é capaz de vencer um adversário em um jogo sem treinar e dar o real máximo de si ou achar que não sabe o conteúdo de uma avaliação acadêmica sem ter estudado realmente é se auto-sabotar. Sair de casa com o céu escuro e nebuloso, sabendo que pode chover e depois de um tempo o céu “desabar” em meio a relâmpagos e trovões e supostamente ter esquecido o guarda-chuvas em casa, desencadeando o pensando de dificuldade de viver, pode ser um indício fortíssimo de retroalimentação niilista. É se deparar com uma possibilidade altíssima de negatividade e não tentar mudar ou diminuir as chances de fracassar.

O neurótico niilista ou -do ponto de vista cognitivo- a pessoa com processamento das informações distorcidas é o indivíduo que está trancafiado em um passado ruim e projeta um futuro fracassado, que nem o deixou acontecer, mas que já está contribuindo para este futuro acontecer negativamente. É não se dar conta que o passado não pode ser mudado, contudo o futuro pode ser feito agora e muito possivelmente moldado através dele mesmo.

Ver a realidade como ela é, fazer de si o melhor verdadeiramente, ter contato com o 0 e ter consciência que o presente é parte indivisível do futuro é conseguir vivenciar de forma mais leve e mais positiva o que o nosso momento e a nossa vida espera de nós.

Neste trecho poético é mostrado um pouco da retroalimentação niilista:
“É simples desse jeito, quando se encolhe o peito e finge não haver competição.
É a solução de quem não quer perder aquilo que já tem e fecha a mão pro que há de vir”.
Marcelo Camelo

Um comentário:

Gabriela M. O. disse...

acho que isso sempre aconteceu