16 setembro, 2009

Poder e Liberdade - Não vivem em um mesmo lugar


Não acredito no poder de uma pessoa. Não tenho fé em quem tem o controle da situação à sua volta. Não consigo conceber que alguém 'está na situação' sobre o que acontece.

Ninguém é capaz de ter pleno poder sobre alguém. Em última análise, o ser humano é livre e tem nas suas entranhas a tendência sobre o querer ser livre, produtivo, coerente e certo da sua responsabilidade sobre a própria vida. Poder, palavra que bate à minha porta diariamente, faz-me sentir uma mistura de repúdio e indignação, não pela palavra em si, mas pelos danos, atravancamento e devastação que pode causar em quem vive num ambiente em que existe a repressão.

Penso em diversos regimes e culturas em que o poder vive. Vejo por todos os lugares desde o radar eletrônico, proibição do uso de tabaco em ambientes até o conselho cuidadoso de um amigo. Existe a necessidade de expôr e/ou impôr ao outro aquilo que julgamos per si o que é melhor para um outro. Esconde-se atrás de uma capa bem desenhada um desejo de que o outro seja -sendo muito otimista- um pouco daquile que somos. Há uma relação Eu -> Objeto e não uma relação Eu <-> Tu onde o respeito pela individualidade e confiança de que a pessoa (não objeto) é capaz de agir de forma positiva e em direção a evolução.

Numa relação Eu <-> Tu existe abertura e aceitação mútua, não sentem necessidade de jogar, manter máscaras ou papéis fixos. Há um processo contínuo, fluido e não um estado. Muitas vezes "estado" é confundido com estado de humor, que não é o sentido que tive a intenção de mencionar. As pessoas tentam se ouvir e ouvir o outro com naturalidade procurando fazer parte do mundo do outro, querendo doar-se e não somente assimilar intelectualmente as palavras.

Poderia citar o exemplo que Freud expressa de forma bastante autoritária "Quase todas as pessoas tem uma forte necessidade de autoridade a quem possam admirar, a quem possam submeter-se e que as domine e às vezes mesmo as maltrate. Aprendemos, através da psicologia do indivíduo, de onde vem esta necessidade das massas. É a ânsia pelo pai que vive em cada um de nós desde a infância". Sobre os grupos ele ainda vai mais longe. Creio que Hitler tenha tido aulas com ele: "Um grupo é extraordinariamente crédulo e aberto à influência, não tem faculdade crítica e o improvável não existe para ele. Inclinado como é para todos os extremos, um grupo pode apenas ser excitado por um estímulo excessivo. Quem desejar produzir efeitos nele, não precisa de um ajustamento lógico em seus argumentos, deve usar as cores mais violentas, deve exagerar e deve repetir a mesma coisa muitas vezes. Ele respeita a força e pode ser influenciado apenas levemente pela bondade, que considera como mera forma de fraqueza. Quer ser dirigido e oprimido e temer seus mestres. E, finalmente, os grupos nunca ansiaram pela verdade. Eles exigem ilusões e não podem passar sem elas. Constantemente, dão precedência ao que é irreal sobre o que é real, são quase tão fortemente influenciados pelo que é falso quanto pelo que é verdadeiro. Possuem uma tendência evidente a não distinguir entre os dois. Um grupo é um rebanho obediente, que nunca poderia viver sem um chefe. Tem tanto anseio por obediência que se submete instintivamente a qualquer um que se apresente como seu mestre".

Diante do exposto, é claro o pensamento de que o ser humano não é responsável por quem é, não é digno de confiança, que em sua essência é perigoso e inferior àquele que também é faminto por poder. Freud está anos luz adiantado no conhecimento da profundeza obscura, talvez dele próprio, desconhecendo ou ignorando que o humano é o autor de grandes realizações pessoais. A pessoa em sua essência é digna, sim, de confiança e aceitação tal como ela se apresenta, em sua sanidade e em sua perturbação. Grupos que experienciam um clima de aceitação por uma pessoa facilitadora, crédula dos potenciais do grupo (mesmo que aparentemente ocultos e inexistentes) e munida de empatia conseguem se auto-dirigir em direções infinitamente construtivas. O poder de si, por parte dos grupos, é responsável por grandes revoluções, por obras literalmente faraônicas. A força que a tendência a atualização, inerente a todos nós, é tamanha que governos são depostos, muros são demolidos, sindicatos são formados em prol de uma busca por liberdade, jovens unem-se e expressam através da música a necessidade que tem de mudança e direitos.

Há grandes instituições descrentes sobre o povo. O mesmo governo de um país que expressa , de forma mentirosa e incoerente, de que a liberdade de pensamento é o bem maior, é o mesmo que tenta privar as pessoas de verem a real face de um regime autoritário que tenta fazer de quem o elegeu alguém apolitizado. Não dá o direito de negar-se a votar, priva o indivíduo a escolher aquele que o julgará no tribunal, pois só vi o poder executivo e o poder legislativo receber o crivo e o voto do povo, mas não o poder judiciário. É verdade que pouquíssimas pessoas vão ao plenário, seja municipal ou estadual, as chances de visitar o federal são menores ainda. Discursos como: "políticos são todos ladrões", "não se pode esperar muito deles", "não adianta nada reclamar" são indícios de alienação. Essa alienação justificada pela falta de interesse em oferecer os meios e o ambiente facilitador para que as pessoas exerçam e explorem o grande poder que todos temos: a tendência a querer ser livre, ativo, construtivo e consciente dos próprios atos. A escola é o que refiro. O poder que professores exercem desde a desagregação mantida sobre a forma de graus de avaliação(notas), proibições como sair da sala o momento que melhor convir, não dar a chance de que o grupo(turma) seja ativo e escolha a forma que quer estudar, os meios que lhe são mais atraentes para aprender. Existe um púlpito entre o magistratus(do latim magister "chefe, superintendente") e o alumnu (sem luz), fazendo com que só seja pensado aquilo que melhor lhe convier.

O caminho até uma maior liberdade é difícil e muitas vezes cheio de conflitos entre aqueles que lutam pela liberdade e pela vontade de serem apenas quem são, sem outros rodeios. É difícil nascer em um lugar onde todos dizem o que devemos fazer, julgando e impondo o que é o certo e errado, onde a maioria das escolas seguem alguma doutrina profetizada por uma mantenedora ligada a alguma igreja. "Seja estudioso!", "isto não pode!", "não responda ao teu pai!", "fica quieto!", "não pondera!", "coma somente depois dos teus pais sentarem à mesa!", "seja obediente e temente à Deus!", "acho que tu não deves te sentir assim, homem não chora!". Ouvimos isso infinitas vezes durante a vida, mas creio que não seja o suficiente para fechar a pessoa dentro de um padrão fazendo-o aceitar o que o mundo e os outros julgam não ser capaz de um dia ser.




Leituras que recomendo:
Sobre o Poder Pessoal (Carl R. Rogers);
Tornar-se Pessoa (Carl R. Rogers);
Grupos de Encontro (Carl R. Rogers);
Em Busca de Sentido (Viktor Emil Frankl);
Psicoterapia e Sentido da Vida (Viktor Emil Frankl).

2 comentários:

camilacorado disse...

muito bom. já escrevi algo parecido, mas mostrando a relação de freud e hitler nas relações de poder.
gostei muito!

Amanda disse...

Realmente sua visão sobre o poder me agrada, penso assim tambem podemos compartilhar pensamentos , estou escrevendo um livro no qual o titulo será " Diario de uma mente " aprovo seu raciocinio .