05 janeiro, 2010

Psicodália 2009/2010 – Um evento para ensinar gerações


Mais uma edição do Psicodália, a minha primeira participação no evento, mas as maiores constatações e confirmações de crenças, que já estavam dentro de mim. Fui despido de preconceitos negativos, excesso de expectativas ou algo que fizesse eu não ver o que estava a minha volta tal como era. Espero conseguir expressar meus sentimentos e minhas apreciações diante da minha experiência vivida de maneira tão fortemente benéfica interiormente. Citarei aspectos que mais me chamaram atenção e darei subsídios de opinião e teorias minhas e de autores que viveram experiências enriquecedoras como a do Psicodália.

As vivências sociais, as interações e a busca pela aproximação com o outro presenciei sentindo de forma muito mais do que “satisfatória”. Presenciei relações espontâneas, verdadeiras e cheias de afeto. Um grito, três gritos, oito gritos seguidos com o som de “Wagneeeeeeeer”, ecoando por toda fazenda, de ponta a ponta. Não mostra somente o nome de alguém ou de um mito; tem por trás o desejo de se filiar, se unir, fazer com que aquele momento seja de todos, seja um só pra todos. A organização de filas e ordens de chegada nos banheiros, lanchonetes, bares e etc. foram pacíficas e ordenadas, mesmo gerando certa angústia e desconforto por esperar tanto tempo pra ser atendido e/ou satisfeita qual fosse a necessidade.

Os locais onde as pessoas se alojaram e montaram suas barracas foram próximas umas das outras, mesmo que nunca tivessem se visto na vida. A interação, entre as pessoas, desde a montagem das barracas, durante a estada e até na hora de ir embora foi intensa e, da mesma forma, verdadeira. Faziam rodas de violão com pessoas de outros locais que o seu de origem, mostravam sons de bandas desconhecidas -até então-, depois tocavam músicas que eram comuns a todos. Existia uma troca de informações, músicas e energias entre as pessoas.

Shows de bandas desconhecidas tinha pra todos conhecerem. Existia uma ótima energia entre todos, incluindo os integrantes das bandas, durante os shows. Ouviam-se as músicas, todos pulavam, berravam e lá em cima do palco a gana por mostrar o melhor de si e mandar música para os ouvidos daqueles que viajaram muitos quilômetros eram as únicas missões. Todos estavam ali por completo, pra ouvir a música verdadeiramente e se entregar ao momento presente. Nunca vi coisa parecida durante toda minha vida. Não existia postura blasé que tem em Porto Alegre, ninguém de braços cruzados ou reclamando de mil coisas só pra parecer culto, tampouco vi desânimo, mesmo estando todos cansados e desnutridos, tal como eu. Sim, a alimentação à base de miojo, sardinha e salgados leves não nutre bem o corpo. Somente no sábado, depois de passar o maior trabalho e levar o maior torraço de sol da minha vida, consegui chegar em um supermercado e comprar coisas básicas como carne, água mineral, suco e comida que alimenta de verdade.

O momento que mais me marcou durante todo o Psicodália foi, sem dúvida, a “batucada no Saloon . Comentei durante um dos momentos de êxtase do pessoal “aqui as pessoas não precisam se comunicar com a fala; elas se comunicam, e muito bem, pelo som”. Ninguém falava uma única palavra enquanto batucava. As músicas mudavam naturalmente. Parecia que nenhuma música acabava pra que outra começasse. Era uma grudada na outra. Ninguém passava por cima de nenhuma música. Pelo contrário, todos iam atrás daquele que puxasse algum ritmo novo. Os corpos se comunicavam através da dança, da capoeira, dos gestos, do batuque, do sorriso, das expressões do rosto. Existia a comunicação mais profunda e interior que os humanos dispõem: a comunicação através do corpo. A fala mente, as palavras são deturpadas e sílabas são trocadas, mesmo sem querer. O corpo não mente; não por muito tempo. Vi e senti verdade naquilo tudo.

Talvez sejam as palavras liberdade e responsabilidade as mais dignas e próximas pra descrever o que foi vivido entre todos. Todos eram livres pra viver e expressar, mas existia um senso de responsabilidade que não invadia o espaço e o direito do outro. Isso tudo contrapõe o que Sigmund Freud gritou aos sete ventos nos seguintes dizeres:

"Um grupo é extraordinariamente crédulo e aberto à influência, não tem faculdade crítica e o improvável não existe para ele. Inclinado como é para todos os extremos, um grupo pode apenas ser excitado por um estímulo excessivo. Quem desejar produzir efeitos nele, não precisa de um ajustamento lógico em seus argumentos, deve usar as cores mais violentas, deve exagerar e deve repetir a mesma coisa muitas vezes. Ele respeita a força e pode ser influenciado apenas levemente pela bondade, que considera como mera forma de fraqueza. Quer ser dirigido e oprimido e temer seus mestres. E, finalmente, os grupos nunca ansiaram pela verdade. Eles exigem ilusões e não podem passar sem elas. Constantemente, dão precedência ao que é irreal sobre o que é real, são quase tão fortemente influenciados pelo que é falso quanto pelo que é verdadeiro. Possuem uma tendência evidente a não distinguir entre os dois. Um grupo é um rebanho obediente, que nunca poderia viver sem um chefe. Tem tanto anseio por obediência que se submete instintivamente a qualquer um que se apresente como seu mestre".

Já Carl Rogers, psicólogo humanista tido como filósofo da liberdade, diz que em um clima de aceitação e respeito pelo outro, onde a personalidade e o que o outro tem a oferecer é levado em conta e valorizado, onde existe uma empatia -o desejo de sentir o que o outro sente- onde se vive com integralidade o momento -experienciando verdadeiramente- é que as relações e os conteúdos são vividos em níveis extremamente profundos, criativos; possibilitando até mudanças significativas na personalidade dos indivíduos. Outra pessoa a qual levo muito em consideração pelo que contribuiu é Viktor Emil Frankl. Este exclamou: “existe a estátua da liberdade na costa leste dos Estados Unidos; proponho que seja construída a da responsabilidade na oeste”. Frankl expressa enorme afeição pelo humano e a sua essência digna de confiança. Aplico esse pensamento às experiências que vivi no Psicodália: ninguém dizia o que fazer, onde fazer, como fazer. Todos eram livres e existia, como já citado, um senso de responsabilidade. Todos faziam aquilo que não prejudicasse outro. O resultado disso foi um festival, uma reunião de interesses mútuos, novas relações feitas, níveis mais profundos nas interações entre diferentes personalidades e culturas, aceitação das diferenças de idéias e até de sons(bandas). Enfim, devido às vivências extremamente humanas é que todos permitiram, a si mesmos e aos outros, viver momentos maravilhosos e engrandecedores; dignos de serem contados aos filhos, netos, bisnetos e todas as gerações que virão depois deste Psicodália.

Vida longa à humanidade verdadeira.

Ivan Pielke

16 comentários:

San disse...

Só uma palavra basta pra expressar o que achei do teu texto. Parabéns!!!

Pedro disse...

Nossa, parabéns se expressou perfeitamente, grande sensibilidade.

Ellen disse...

Se me vieram lágrimas aos olhos??

sim, vieram!

otima definição!

Xanda disse...

arrepios e nostalgia ... parabéns!

Blog da RAFITA disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Blog da RAFITA disse...

as palavras liberdade e responsabilidade realmente sao essenciais no seu texto pra poder explicar a essencia do psicodalia... é um lugar surreal onde considero as melhores pessoas participam,convivem e transmitem suas energias...
Parabens pelo seu texto!

thomas f disse...

afude meu, é isso aí!

its rock

Camila disse...

Parabéns pelo texto!
Pode ter certeza que a maioria das pessoas que estavam lá sentiram a mesma coisa que você, estavam todos no mesmo clima, na mesma energia, mas ao mesmo tempo cada um estava na sua viagem...
foi a melhor experiência da minha vida.

Daniele disse...

Demais teu texto, parece um porta voz dos sentimentos da galera que participou e realmente entendeu o evento!! Parabens!!

Patrícia Soransso disse...

fiquei emocionada. parabéns.

Marcela disse...

Belo Artigo .. Parabens!
Conseguiu expressar tudo que o festival psicodália significa, não só na minha opinião, mas como de muitas pessoas.

Francielle disse...

Existe um lugar diferente!
Existe.

bill disse...

QUERO VOLTAR PRA LA!!!

Mateus disse...

Excelente! No lugar de um líder, um ideal...

Gabriel disse...

Depois de ler teu relato decidi que não existe possibilidade de eu não comparecer na próxima edição.
Será minha primeira vez no festival, e a expectativa é grande.
Obrigado por contribuir na minha decisão, Valeu !

Luana Bonin Portes disse...

Lágrimas sim.

Descrição perfeita!