09 setembro, 2010

A miséria e a dignidade da alma – pensando a política


A visão fica turva, as marolas são trocadas por tsunamis, as árvores deitam-se, os olhos tornam-se o mar que ninguém desvendou. Pobres almas sofridas, tomadas pela fome, mínguas de conhecimento. Homens vistosos, altos, vestindo os mais belos tecidos. Tecidos. Feitos de linhas que nem os maiores imperadores, nos tempos mais proveitosos, tiveram sobre suas ombreiras. Medalhas, menções, títulos, doutos nas ciências da Terra. O que fazem estes homens? Para onde conseguem vencer o olhar? Miseráveis são somente os que lambem sacolas de lixo cheias de matéria orgânica? Será que existe somente matéria orgânica benéfica? Existem somente bons homens na miséria? Essa miséria vivida é só na ausência de nutrientes do corpo ou existe a miséria moral?

Os valores morais não são subjetivos, contrariando os filósofos, psicólogos, analistas, sábios do raso humano. A “subjetividade” que tentam incrustar forçosamente é o véu de rendas ourificadas que deixa de fora os calcanhares e os pêlos que remetem a humanidade ao tempo que a barbárie era menos hipócrita. Os valores morais se mostram de todas as formas: palpáveis, doloridas, vivas, enfermas, coisificadas, e também positivas. Nenhuma providência existe por si só, sem uma razão. A visão que o indivíduo tem de um indivíduo tende a resultar em uma ação, que remete a essa visão. Se vejo alguém digno de respeito, tendo a agir com respeito. Se tenho o dever, segundo as convenções, de dar ao outro o que me propus a oferecer, tendo a oferecer. Com esses valores de respeito, dever e zelo pelas convenções, creio ter encontrado a base para viver sobre uma base forte em todas as relações, sejam elas quais forem. Todo ser humano é um Ser-Político.

A palavra política, vinda da polis, passa a um sentido mais amplo, de muito tempo antes das primeiras cidadelas. As relações políticas existem antes mesmo do nascimento, antes da concepção do embrião, antes dos pais se conhecerem, antes dos pais nascerem, antes de criarem os anticoncepcionais, e antes de existir o homo sapiens sapiens. Um ser político pode te atender em uma loja ou em um órgão público. São seres humanos diferentes em papéis diferentes; continuam seres políticos. A forma que o vendedor da loja atende é dirigida pelo seu dever vender. O como vender é dirigido por valores, por uma ética. Ele pode vender seus produtos sendo simpático, atencioso, conhecendo bem os produtos e cumprir o seu papel na venda. Mas os atributos desse profissional podem ser influenciados pela política de vendas da loja; que pode exigir uma meta de vendas, pressionando tanto a “produção” – venda – e principalmente o atendimento – política/forma do atendimento. O vendedor tenderá a além de atender e oferecer os produtos que o cliente deseja, “empurrar” produtos que talvez sejam caros, adicionar produtos que a pessoa não está procurando, negociará formas de pagamentos, quase todas elas onerando excessivamente o cliente e etc. O cliente tem a liberdade tanto de comprar como de negar as ofertas forçadas, o que não anula o desejo do vendedor e a política de venda obstinada, que foi o que quis ressaltar. O médico de um órgão público trabalha e se relaciona através da sua política de trabalho e da instituição, onde é permeado. Segundo relato verídico de uma usuária do sistema de saúde de Porto Alegre, ela conta que sua consulta fora marcada para as 11h30. Após aguardar uma hora, foi até a recepção e indagou sobre a possibilidade de ter ocorrido algum problema na marcação da consulta ou com a ausência da médica. A recepcionista informa que a médica está no posto de saúde e logo será atendida. Foi então que a paciente saiu do posto e caminhou até a lanchonete. Lá estava a médica tomando seu café sob o Sol. A senhora perguntou a médica: “A senhora deveria ter me atendido há uma hora”. A resposta foi: “Senhora, isso aqui é o SUS”. Inevitavelmente pensamos na situação do Sistema Único de Saúde do nosso país e pouco lemos sobre a sua política. No site do SUS e no seu estatuto está escrito: “O SUS institui uma política pública de saúde que visa à integralidade, à universalidade, ao aumento da eqüidade e à incorporação de novas tecnologias e especialização dos saberes”. Sem o atendimento liquida-se com toda proposta do Sistema. Dá-se adeus a integração das áreas médicas, universalidade na abrangência do público assistido, equivalência de direitos ao atendimento em saúde, tampouco ao uso dos milhões gastos em tecnologia e qualificação dos profissionais. Diante da análise breve, vemos que a política do sistema de saúde é perfeita, justa e a intenção é de humanizar e aproximar os profissionais daquele que precisa de ajuda. A falta de ética, a cegueira para os valores humanos, incapacidade de ser responsável com o outro, a amputação dos direitos humanos daquela senhora, e de muitos brasileiros e viventes do mundo todo, é feita todos os dias devido à política pessoal de relacionamento e de trabalho que muitos indivíduos tem.

Durante a leitura dos exemplos acima certamente o leitor pensou em algum caso; se não lembrou algum, certamente já passou por alguns sofrimentos devido a formas negativas que as pessoas procuram tratar as outras. Muito se ouve falar sobre a crise de valores. As três palavras “quebra de paradigmas” ecoam gerando uma repugnância e um embrulho espiritual. Quebra-se o quê? Quebram pernas e retalham almas de pessoas todos os dias. Como é visto, sentido e sofrido, os valores não são mais tão subjetivos e escondidos atrás de carapaças intelectualizadas de filósofos, sociólogos e psicólogos de gabinete. Todos sofrem devido a Seres-Políticos que tem o poder como único objetivo. Tendo esse desejo de poder obstinado ficam cegos para as necessidades, sofrimentos e passam por cima de qualquer um, principalmente daquele (outro candidato) que também está obstinado e cego pelo poder. Nas eleições deste ano, vemos dossiês, ataques, mentiras, falácias, meias-verdades, fuga de debates de idéias e propostas (políticas); tudo para chegar ao poder. Poder ter, em detrimento ao valor de poder ser. Ser alguém mais digno para si e, principalmente, para aqueles que deveriam se propor a trabalhar; pelo povo, não para o próprio bolso, não é, mensaleiros, corruptos?

Nas escolas: enquanto as pessoas não forem instigadas a pensarem por si, procurarem as informações em diversos cantos, trabalharem as formas de se relacionar responsavelmente e livremente, criarem novos conhecimentos levando em conta os valores éticos, as coisas vão demorar no tornar-se humano. Esses seres humanos devem ouvir suas consciências. Deverão fugir dos extremos do totalitarismo oriental e da passividade niilista ocidental. Todos somos políticos em pleno potencial de exercer essa política, de acrescentar a vida do outro, de mudar alguma coisa dentro de nós que seja proveitoso para o outro. Analise a nossa visão niilista sobre os “políticos” que pedem seus votos, que os levarão ao poder e, possivelmente, à posse de dinheiro alheio. Pensemos por nós mesmos antes de acreditar cretinamente que nenhum político que se candidata a alguma esfera do poder (executivo ou legislativo) é “corrupto” e “ladrão”. Antes de tudo, antes daquele se candidatar e se eleger, tu és um político, e és tu quem o elege, ou não.

Não escrevo com cunho moralista ou com desejos de que ajam de determinada forma, já prescrevendo uma única forma, uma única verdade. Proponho para que pensem por si, buscando suas formas e talvez se candidate, não somente a um cargo, mas a exercitar a liberdade de direito de forma responsável.

Penso, tenho fé na justiça. Façamos a nossa parte em todos os momentos onde somos instigados a exercer nosso poder político.

“A ciência não torna o homem melhor(...)” - Jean Jacques-Rousseau.

“(...)o que se propõe a isso são os valores e um sentido de vida; que o fazem evoluir, somente como uma conseqüência destes valores éticos e vivenciais” – Ivan Pielke.

Um comentário:

Marcelle Warth disse...

Este texto é muito bonito. São verdades unidas, onde cada um no final busca sua própria resposta.