12 março, 2011

As Três Palavras


O trem avançava aos poucos, deixando para trás o presente, desprendendo da rotina trabalho-casa, fazendo o transeunde mais um entre os tantos outros. Na cabine individual apreciava a paisagem, a pia gotejanto sobre o limo, o espelho quebrado no canto, aparentando estar ali há meses - talvez anos -. O banco duro de mogno achatava suas histórias, agora se perdendo. Enquanto ela se arrumava em outra cabine, pensando em como seria a viagem e onde queria chegar, ele revirava as suas malas em busca dos seus charutos. Alguém bate a porta como se fosse brigar com o marco; talvez seja a porta da frente, onde ele avistou um homem um tanto “esquisito” entrar vestindo um terno preto, poído na manga e cheirando a cigarro barato. “Gostaria de ser esse trinco, quebrar-me e voar como aquela chave”, pensa ela no quarto ao lado.

Com sede, se dirige até o restaurante para pedir uma jarra d’água para a longa viagem. No corredor a moça loira, de olhos castanhos, com um vestido branco até meia-canela avista aquele homem magro, trajando um terno preto, de gravata borboleta e cartola. As pupilas de ambos estão fixas no rosto do outro. Em um gesto cavalheiro ele cumprimenta a linda mulher de pele clara. Desistindo do seu aposento, volta até o balcão onde ela pedia um copo de leite morno. Aproximando-se pergunta: “Me concede a honra de três palavras?”.

~

Os vagões sacodem atrapalhando a conversa e o sono dos passageiros, derrubando algumas xícaras. “Malditos sejam esses dormentes! Contratam acéfalos preguiçosos para fazer trabalho de gente! Deveriam ser eles os dormentes!”, grita o maitre, chamando a atenção de todos. O bigode dança para o lado e para o outro, como vassouras. Na verdade, ele não é um maitre nem tem o trejeito, a postura fina e elegante que os outros possuem; o jeitão aparenta um açougueiro desossando um porco ainda vivo.

O balanço e os trancos atrapalham o ensaio poético que Constanzo oferecia a Alice. Entre chás com biscoitinhos e pingos de leite, a desenvoltura cativa os olhos castanhos-quase-verdes da linda moça. Ele com seus 34 anos, apertado na crise prematura de meia idade; ela jovem, seus gestos aparentando não mais que 19 anos.

Eles brincam com as palavras, acanhados se aproximam; buscam conhecer um pouco mais do outro. Surge algo em comum: o amargo. Tentam decifrar entre as poesias decoradas e as novas improvisadas, acabando em um beijo leve, solícito, caridoso. Os outros casais presenciam o carinho, comovem-se sentindo um encontro juvenil, recordando os tempos onde tudo brilhava mais. A mão calejada toca a delicada e preciosa pele alva. Aos poucos são arrancados dos seus mundos, voam pelas narinas adentrando a alma dolorida como Deus em seu sopro de vida. São tomados de uma paz angelical. Nesse instante, sentem eles, que o mundo está girando pela primeira vez e a natureza está parando para presenciar esse sentimento puro e brumoso.

Precisam acordar.

Ele pede a conta enquanto começam esboçar uma tentativa de reflexão sobre o que recém viveram. Estão atônitos e inebriados, quase em êxtase. Não é comum nesses tempos conservadores um casal se conhecer e em pouco mais de hora e meia se beijarem e trocarem tantas confidências. Contanzo conta sobre sua mãe aflita e doente, seu pai carrancudo e rígido. Mostra sua infância distante e sofrida nos campos onde semeavam o sustento. A jovem Alice expressa suas preocupações com o pai solitário e taciturno e os estudos de botânica. Embora corada aparentando vitalidade, sofre de asma e dores nas costas. Dizem que é no corpo que a alma - doente ou saudável - se manifesta; não é diferente com suas dores físicas e espirituais. Levantam-se sem jeito, sem saber se andam de mãos dadas, lado a lado ou para onde irão. Ela confessa que não tem um destino, prometeu a si mesma que pegaria o primeiro trem que se aproximasse da estação; assim fez. Contanzo se sente compelido a continuar fazendo companhia e a convida para ir ao encontro das músicas que ouviam do outro vagão.

Lá estão senhores e senhoras sentados em poltronas duras - mas elegantes - fumando seus charutos e falando alto; o que irritava os músicos. Era um grupo que tocava músicas folclóricas da França, Rússia, Espanha, Grécia e da Alemanha. Agradavam a todos, mas não o bastante para prender a atenção e respeito dos bêbados. Já era noite e a paisagem seca era engolida pela escuridão. As montanhas nevadas se escondiam aos poucos. A locomotiva segue no mesmo ritmo. Alguns garçons tratam de acender as lamparinas a querosene, deixando o ambiente cheirando a fuligem, fumaça de cigarro e charutos confundindo todos os cheiros de perfumes baratos que as "donzelas" usavam. Sentam-se por alguns instantes, mas logo Alice começa a tossir e pede para sair daquele ambiente ébrio.

~

Em seu quarto ele pensa em tudo que viveram até ali, venera mentalmente a beleza juvenil e adorável de Alice. Sente-se jovem, volta no tempo, voa como um pássaro, perdendo suas asas e caindo como um meteorito em seu leito. A realidade e a dúvida devastam o sono. Pergunta-se a todo momento o que está vivendo, o que havia feito, esquecera todos os versos embriagados - no momento eram tão ricos, belos e espontâneos - agora onde estão?. “Como estará Alice? Estará pensando em mim? O que faço para não perdê-la? Terei coragem de descer desse trem? Em movimento e sobre uma ponte agora eu seria”.

“Tremo, sinto, afogo meus cabelos e meu corpo em água límpida deixando-me de molho o tempo que for, caso seja preciso ficar bonita para ele. Que estou pensando, meu Deus? E ele, será que apenas me usou para remediar a solidão presente atrás daquela gravata torta e desbotada?”.

O amargor toma conta de Constanzo. Caem lágrimas envergonhadas sobre o peito dolorido. Toma de sua flauta que trazia envolvida em papel amassado e contempla. Contempla a infância, quando ensaiou as primeiras notas da vida. Antes, em cada nota, nascia um sorriso, nesse momento surgem apenas lágrimas. Ele assopra, manda vida para cada orifício cortado pelos seus dedos. Alice é acordada pelo som doce - da flauta doce. É daqueles sonhos que não se quer despertar. Ainda deitada ela pega palavras no ar. Levantando devagar ela se aproxima da sua bolsa, apanha a caneta tinteiro e escreve a ele. Com um beijo e um soluço sela o pequeno papel.

~

Constanzo acorda com a flauta em seu peito e o sol batendo no rosto. Levanta-se para beber a água da jarra e vê um pequeno papel sendo empurrado pela fresta da porta. Logo identifica se tratar de um bilhete.


“Meu querido,

Obrigado pelos momentos que vivemos. Agradecerei eternamente a Deus e ao teu anjo por ter guiado você até a mim.

Levarei os teus suspiros que agora também são meus. Viva muito pois viverei por ti.

Deixe-me ir.

Alice Solità”.

Rapidamente Constanzo apanha seu tinteiro e a pena. Escreve aquelas três palavras que pediu próximo ao balcão. Andando rápido pelo corredor procura pelo funcionário perguntando em qual cabine Alice havia passado a noite. Percebendo a inquietação e o suor no rosto já enrugado pelas marcas, o jovem funcionário exclama:

- Meu senhor, permita-me ser sincero: o senhor não aparenta estar bem. Quer que eu lhe traga um chá?

Soluçando e começando a chorar Constanzo implora:

- Não. Diga-me onde ela está, por favor! Por favor! Por favor! – caindo de joelhos segurando Miguel pelas mãos, beijando os seus pés e mordendo seus próprios dentes.

Calmo, o moço responde:

- Ela esteve, mas não está mais.

Constanzo não cabe mais em sofrimento e desespero. Ainda de joelhos começa a enxugar suas lágrimas e se dar conta do escândalo que estava exposto. Miguel amavelmente indaga:

- O senhor não deve se lembrar, mas eu que servi o copo de leite a ela. Vocês formavam um casal, digamos, amável...

- Eu só preciso reencontrá-la. Entregar esse bilhete, essa resposta! Ela precisa saber!

Toma educadamente o papel amassado das mãos trêmulas de Constanzo. Comovido ele abraça o desesperado. Com certeza em seus lábios acalma Constanzo e planta alguma esperança:

- Tenha uma certeza no coração: a verdade carregará essas palavras para o além da eternidade, meu senhor.


8 comentários:

Estevan disse...

Parte da faculdade da escrita reside no fato da criação. Criar as formas simbólicas que tecem o texto ao ser. Talvez seja a escrita um tema tão intritgante cujo interesse de histpriadores e literatos tentem comungar. Sobre o que se está a dissertar? Assunto algum, ao menos. Idéias de sentimentos talvez, expressas em imagens mentais estrambólicas e contínuas a ponto de reaquecer com adjetivos muito próprios a arte que em nós nos toma de assalto. Atinge finalmente a criação a criatura, torna mole toda a coisa dura. Se faz ser simplesmente.

Ivan Pielke disse...

Muito, mas muito obrigado por se importar e dividir.
Dificílimo encontrar pessoas que mergulhem e logo pulem pra fora d'água; alguns se perdem e se afogam achando que somente a profundidade existe.

Os personagens precisam de horizontes, mais que profundidade, creio eu.

Continuemos!

Estevan disse...

São poucos os peixes que pulam fora da água. A profundidade pertence aos peixes. Entretanto, a profundidade em nada impede que adentremos no coração do homem em sua produção mais verdadeira é a literatura - incluo aí também as ficcionais, tendo em vista que são modos de ser da imaginação que é outra forma de ser do homem. Isso também me faz pensar sobre o sentido do ser diante da criação. Toda a criação possui propósitos, sejam eles concernentes pela experiência empírica ou não. A expressão dos atos humanos da linguagem não deve reduzir o homem a linguagem. E nisso é possível falar de literatura em uma psicologia do velamento.

Ivan Pielke disse...

Quando encerramos a pessoa ou a obra em um círculo ou quadrado, estamos arrancando o que de mais valioso existe.

Somos responsáveis pelos meios expressivos e construtivos tanto na obra literária quanto na vida mesmo.

O peixe é da profundidade, mas alguns precisam tomar ar.

Há muita ficção no pragmatismo e pragmatismo nas obras literárias. O conto é um exemplo; precisamos foco, intensidade e um tempo relativamente curto. Em muitas teorias a ficção é a única "coisa" que existe. Há muitos delírios também.

enfim...

Estevan disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ivan Pielke disse...

Aí é que tá: que métodos são esses? Método pressupõe algo pré-concebido. Ou seja: antes mesmo de nos deparar com um humano, já temos um conceito sobre. Sabemos muito bem que essa espécie de ser vivo é bem mais complexa que qualquer teoria ou método.

Estevan disse...

O problema é sobre a essência do peixe. Este precisa da água, não vive sem. Da mesma forma a ficção não é a única possibilidade. A essência vista por sua diferença nos leva novamente para um estudo das formas, dos prazeres e dos enganos pelos quais a civilização vem sempre ao encontro. isso também é especialmente interessante para filósofos e historiadores. A coesão pela racionalidade aproximada torna os conceitos concretos na realidade da vida. Se for somente isso não escaparemos do binômio. O legal é deixar fluir...

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