27 maio, 2011

Enquanto eu durmo


Se tu soubesses que o nada é tudo
Nós não viveríamos em torno da fogueira
Acreditando que ela se chama Sol
Sofrendo por dentro, cuspindo ao longe
Apontamos para satélites, não a Lua
Ouvimos letras, uivos e rancores
Tiros, pedras, bombas e turbantes
De lá caem prédios espelhados
Atiram-se para não se queimar
O fechar dos olhos pode ser sonhar
O findar da vida quando amanhece
Ou a vontade de nesse mundo não acordar

25 maio, 2011

Sobre o Sentido

chora enquanto há o que chorar
respira enquanto soprar o ar
anda sobre o chão que sustenta
ama sempre a fé que te alimenta

não ouça nada que eu falo
esquece o que te digo
vá morar longe daqui
onde não há nenhuma dor
mas habita o teu sentido

22 maio, 2011

hão deixar

os sons são poucos
quando não estás
o profundo fica raso
cama se passa por sofá
domingo vai acabando
teus fios adocicam o que há
são gotículas de suor
que nunca hão de me deixar

19 maio, 2011

Enquanto haver moral

Desde a Grécia
a partir do Oriente
os dias correm livres
onde há homens
sorridentes

Todos pensam a dor
eles que a causam
protegem a imperfeição
pra poucos verem
se é árabe ou cristão

Dias, Séculos, Milênios
o espaço pouco importa
nele somos quem queremos
desde que alma se eleve
pois nunca estará morta

Em todos há esperança
que não se apaga
alguém atreve a esquecer
mas logo acorda sempre
sob a mão que maltrata

Enquanto não haver moral
e amor ao educar
cuspiremos em nossas mães
honraremos ladrões
mesmo após esse mundo acabar

18 maio, 2011

Aprender através da experiência, não dos discursos


Não gosto das explicações em forma de discurso. Os jovens prestam pouca atenção nelas e não as retêm. As coisas! As coisas! Nunca terei repetido suficientemente que damos poder demais às palavras. Com nossa educação tagarela, só criamos tagarelas.

Suponhamos que, enquanto estudo com meu aluno o curso do sol e a maneira de se orientar, de repente ele me interrompe para me perguntar para que serve tudo aquilo. Que belo discurso irei fazer-lhe! De quantas coisas aproveitarei a oportunidade para instruí-lo em resposta à sua pergunta, sobretudo se tivermos testemunhas para a nossa conversa*. Falar-lhe-ei sobre a utilidade das viagens, sobre as vantagens do comércio, sobre os produtos particulares a cada clima, sobre os costumes dos diferentes povos, sobre o emprego do calendário, sobre o cálculo do retorno das estações para a agricultura, sobre a arte da navegação, sobre a maneira de se guiar no mar seguindo exatamente a rota, quando não se sabe onde se está. A política, a história natural, a astronomia, a própria moral e direito das gentes entrarão em minha explicação, dando ao meu aluno uma grande idéia de todas essas ciências e um intenso desejo de aprendê-las. Quando tiver dito tudo, terei feito uma exibição do verdadeiro pedante, da qual não terá compreendido uma única idéia. Ele teria como antes vontade de me perguntar para que serve orientar-se, mas não ousa, temendo aborrecer-me. Prefere fingir que entendeu o que o forçaram a escutar. Assim se fazem as belas educações.

Mas o nosso Emílio, educado de uma maneira mais rústica, e ao qual demos com tanto trabalho uma concepção dura, não escutará nada disso. Quando ouvir a primeira palavra que não entender, irá embora, brincar no quarto, deixando-me a arengar sozinho. Busquemos uma solução mais grosseira; meu aparato científico não vale nada para ele.

Observávamos a posição da floresta ao norte de Montmorency quando ele me interrompeu com sua importuna pergunta: Para que serve isso? Tensa razão, disse-lhe eu, precisamos pensar bastante nisso; e, se acharmos que este trabalho não serve para nada, não voltaremos a ele, pois não nos faltam diversões úteis. Ocupamo-nos co outra coisa e não se fala mais de geografia pelo resto do dia.

No dia seguinte de manhã, proponho-lhe um passeio antes do almoço; ele não queria outra coisa; para correr, as crianças estão sempre prontas, e esta tem boas pernas. Subimos à floresta, percorremos os Champeux e nos perdemos, já não sabemos onde estamos; quando chega a hora de voltarmos, não conseguimos reencontrar o caminho. O tempo vai passando, vem o calor, estamos com fome; apressamo-nos, erramos em vão de um lado para o outro, por toda parte só encontramos bosques, pedreiras, planícies, nenhuma informação para reconhecimento. Muito acalorados, muito cansados, com muita fome, com nossas idas e vindas só conseguimos perder-nos mais. Finalmente sentamo-nos para descansar e para conversar. Emílio, que suponho educado como outra criança, não conversa, mas chora; não sabe que estamos à porta de Montmorency e que um simples matagal a esconde de nós; esse matagal, porém, é uma floresta para ele, um homem da sua altura enterra-se no mato.

Após alguns instantes de silêncio, digo-lhe com um ar inquieto: Meu caro Emílio, como faremos para sair daqui?

Emílio, muito suado e aos prantos.

Não sei. Estou cansado; estou com fome; estou com sede; não agüento mais.

Jean-Jacques

Achas que estou em melhores condições do que tu? Achas que eu deixaria de chorar, se pudesse almoçar com minhas lágrimas? Não se trata de chorar, mas de saber onde estamos. Que horas são no teu relógio?

Emílio

É meio-dia, e ainda estou em jejum.

Jean-Jacques

É verdade, é meio-dia e ainda não comi nada.

Emílio

Ah, como deves estar com fome!

Jean-Jacques

O pior é que meu almoço não virá buscar-me aqui. É meio-dia, é justamente a hora em que ontem observamos de Montmorency a posição da floresta. Se pudéssemos da mesma forma observar da floresta a posição de Montmorency!...

Emílio

É, mas ontem estávamos vendo a floresta, e daqui não vemos a cidade.

Jean-Jacques

Esse é o problema... Se pudéssmos achar a sua posição sem precisar vê-la!...

Emílio

Ó meu bom amigo!

Jean-Jacques

Não dizíamos que a floresta estava...

Emílio

Ao norte de Montmorency.

Jean-Jacques

Por conseguinte, Montmorency deve estar...

Emílio

Ao sul da floresta.

Jean-Jacques

Há um meio de achar o norte ao meio-dia.

Emílio

Sim, pela direção da sombra.

Jean-Jacques

Mas e o sul?

Emílio

O que fazer?

Jean-Jacques

O sul é o oposto do norte.

Emílio

É verdade; basta procurar o oposto da sombra. Ah! P sul é ali! O sul é ali! Com certeza Montmorency fica deste lado; vamos procurar deste lado!

Jean-Jacques

Pode ser que tenhas razão; tomemos este caminho pelo bosque.

Emílio, batendo palma e dando gritos de alegria.

Estou vendo Montmorency! Ali bem à nossa frente, bem à vista! Vamos almoçar, vamos comer, rápido; a astronomia serve para alguma coisa.

Notais que, se ele não disser essa última frase, ele a pensará. Pouco importa, contanto que não seja eu quem a diga.

Ora, podeis ter certeza de que não esquecerá por toda a vida a lição desse dia, ao passo que, se eu só lhe tivesse feito supor tudo isso em seu quarto, meu discurso teria sido esquecido no dia seguinte. Devemos falar tanto quanto possível através das ações, e só dizer aquilo que não podemos fazer.

* Muitas vezes observei que, nos doutos ensinamentos que damos às crianças, pensamos menos em nos fazer ouvir por elas do que pelos adultos presentes. Tenho Certeza disso, pois observei em mim mesmo.

Trecho de “Emílio ou Da Educação” – de Jean-Jacques Rousseau

17 maio, 2011

Outono ao lado

sei, a saudade é presença
quando falta a dormência
acordo virado para o lado errado
atrás de mim tu estás
de olhos abertos
contemplando meus olhos fechados
o pouco que sei
é que amanhã será gelado
manhã de outono
sou fruto que não cai
por acordar ao teu lado

O que é nosso


por favor, não
não diga
aquilo que foi
minha condenação

da noite, da manhã
de tanto ardor
quando deixei de ficar
onde desci do andar
que espreguiçava amor

sofrendo, em aperto
costurando a manga
seca lágrimas de tormento
poída de roer
é que isso ajuda
um pouco a esquecer
o quanto passou
de vida e que ainda vou
levando o viver

o "só" que digo
é que agora peço
juro ser digno
de todo calor
ainda pra ser honesto
comigo, com teu peito
com nossos netos
leva-me no bolso
meio sem jeito
enquanto acrescento
o berço mais singelo

posso cambalear pela vida
desde que tenha o verde
que seja dos teus olhos
que me ature, me aguente
estaremos aqui plantando
fazendo do amor o fruto
pra no futuro ser escudo
do que hoje é semente

O amor é bússola

O que a pena não escreve
A tinta atormenta
Correntes de suor no peito
Enquanto o sol esquenta

Está frio aqui dentro
Amanhã eu não sei
É de solidão que vivo
É vida ou esconder

Quando o nada é tudo
A ciência mente
Acaso é desculpa
Pra quem não entende

Buscamos alguma força
Mesmo que seja curta
O norte está aqui
Quando amor é bússola

15 maio, 2011

Antimanicomial - Um Movimento?!


A história mostra os movimentos da relação entre loucos e sociedade. Eles já habitaram leprosários, prisões, ilhas, hospitais gerais e manicômios. Dividiram espaços com leprosos, tuberculosos, criminosos e toda sorte de portadores de alguma coisa que apontasse para o adoecimento. Mas a cronologia também aponta que esses loucos já foram sábios, gurus, intermediários entre os deuses e os mortais, bruxos e até mentores de muitas comunidades. Em determinados contextos, com a evolução do pensamento e da ciência, os loucos tiveram tratamento diferente no meio onde viviam; nem sempre tratados com respeito, muitas vezes superestimados em poderes, outras esquecidos – a sociedade, a ciência, o ethos (costumes de um povo) e a religião influenciaram no “diagnóstico” daqueles que eram ajustados ou desajustados, segundo parâmetros relativamente ou hipocritamente estabelecidos.

No final dos anos 1970 surgem os primeiros movimentos críticos da reforma psiquiátrica no Brasil, tentando fazer uma reformulação do pensamento com relação ao tratamento e eticidade com relação aos desajustados ou, se preferir, portadores de sofrimento psíquico. Essa forma de pensar foi muito influenciada pelo zeitgeist da década anterior, onde surgiram os hippies, artistas como os Beatles, Bob Dylan, as feministas e diversos grupos que defendiam o fim da guerra fria, os confrontos no Vietnã, a valorização dos direitos humanos. Mas é na Itália que criam a lei 180, em 1978, sob o avanço da psiquiatria democrática; um novo modelo de prática psiquiátrica que serviu de parâmetros para novas legislações e relações entre as instituições e os loucos.

Os seres vivos, especialmente os animais, tendem a viver em movimento; seria diferente com os animais que sofrem? Agora tomamos a ordem inversa ao modelo anterior – as instituições que serviam de habitação e tratamento, muitas vezes até o findar da vida do paciente, começam a ser substituídos por novas praticas. As almas doentes começam a ser vistas com direitos e detentores de possibilidades. O espaço físico se amplia, onde tentavam conter o corpo devido ao estigma da periculosidade, busca ajudar o paciente a ter maior liberdade e condições de lidar com essa liberdade, com seus direitos a serviços de saúde, atenção e reinclusão social. Segundo creio, os loucos nunca estiverem fora da sociedade, mas sua existência fora negada nessa sociedade; o que não é sinônimo que não estivessem inseridos. Os loucos, como tantos outros grupos com suas necessidades, hoje tem muitas dificuldades de acesso aos bens básicos como educação, saúde, segurança e principalmente auto-estima.

Além de conhecer a história do movimento antimanicomial, precisamos conhecer o que está sendo feito hoje, onde a loucura nasce e como devemos agir para evoluir. Evoluir, nesse caso, é poder ajudar o outro de forma ética e justa. A loucura surge na educação, na relação familiar, baseada em um ethos, na relação de pais-cuidadores que agem segundo seus valores morais e seus filhos. O dilema está entre os indivíduos e o vazio ético que vivem, levando para a sociedade esse vazio e trazendo para casa toneladas da podridão social. Nos relacionamos com negligência, desrespeito, ignorando que na nossa frente existe alguém e esse outro tem suas necessidades e direitos. É assim que surge a loucura, não de um lugar distante, mágico, em alguma Disneylândia, ou dentro dos manicômios e clínicas psiquiátricas, mas nos cômodos das residências civis, na cozinha, nos quartos e nas salas. Só procura atendimento médico quem está doente ou quer prevenir a doença.

Vivemos uma nova loucura, não a psíquica, neurológica, médica; a loucura moral, antecessora da loucura psíquica. Vivemos uma loucura noogênica, aquela loucura do vazio, do vácuo existencial.

Agora precisamos trabalhar para além dos residenciais terapêuticos, dos Serviços de Atenção Psicossocial, dos ambulatórios hospitalares e tratamentos psicofarmacêuticos; a loucura vem de casa, deve ser constata na escola, tratada desde cedo. Os pais, como os professores (humanos, tal como a criança) necessitam de cuidados. Ninguém está isolado na sociedade, por maior que seja a distância física e psíquica (como viviam nos manicômios), não estavam ali por acaso, existe uma causa proveniente da sociedade e a sua visão ética-política sobre a saúde e doença mental. É necessário abandonar o conceito rígido de “família estruturada” baseada em pai e mãe “saudáveis”. O senso comum, neste caso, não mente: em quase todos os grupos familiares temos relativos graus de loucura.

O desafio é desenvolver o pensamento moral na escola, que esse pensamento surja de dentro para fora, não em novas catequeses sob modelos políticos, ideológicos e/ou partidários. Colégios não sejam os novos manicômios, onde supostamente aprendem, mas que na realidade adoecem e reproduzem a doença das instituições do Estado. Essas crianças sejam cuidadas, suas famílias vistas, o vazio moral e existencial seja substituído pela liberdade de pensamento, responsabilidade sobre ser quem se é e sobre os seus presentes e futuros atos; não se tornem os antigos “alienados” mentais tampouco os novos viciados em alguma droga que diariamente surge.

Nesse 18 de maio, dia da Luta Antimanicomial, convido os leitores a pensar, reformular e abrir as nossas portas manicomiais do Estado. Os loucos talvez não sejam os “alienados” mentais, “loucos de pedra”, e o esquizofrênico da novela; a loucura moral está votando no político que de antemão sabemos que lesou os que confiaram a ele seus direitos básicos; a loucura moral do professor que está mais interessado no conteúdo que exercitará somente a memória, não as atitudes da criança; a loucura moral está no extremo da negligência dos pais quanto ao cuidado ou no excesso de poder que exerce sobre seu futuro “bandido”, “viciado” e “louco”.

Tenhamos confiança que existe um sentido para viver, que esse por que viver se reflita no social ajudando para que talvez surjam novas formas de relação que não sejam loucas moralmente ou psiquicamente.

“Não é demonstração de saúde ser bem ajustado a uma
sociedade profundamente doente”

Jiddu Krishnamurti

Mais artigos, ensaios e outros escritos em: www.pelaalma.blogspot.com



Sugestões de leitura:

“História da Loucura” – Michel Foucault

“Em Busca de Sentido – Um psicólogo no campo de concentração” – Viktor Frankl

“Liberdade para Aprender” – Carl Rogers

“Emílio ou Da Educação” – Jean-Jacques Rousseau

Diferentes

Pensei em ser leve. Eu sou leve. Meus amigos me diziam que eu era duro e pesado. Decidi não mais ser. Preferi ser um outro, que hoje sou. Procurei em todas as perdições aquilo que nunca encontrara, mas que estava em mim. A c-alma.
Com a calma encontrei a alma. Encontrei outra alma. Ela era meu querer, minha menina, minha satisfação de cuidar. Eu era visto, desde que não necessitasse que ela se abandonasse. Nunca houve erro, houve desencontro. Eram esses desencontros que lhe doíam. Resolveu trazer bússola. Pôs no peito. Mostrou-o a ela. Ela não via bússola porque não via o peito. Comprou uma biruta, pra que talvez o vento fosse mais leve que o magnetismo do instrumento posto no peito. Ela negou o vento, começou a soprar de acordo com os seus pulmões, esqueceu-o novamente. Só restavam dois barcos que agora não formavam esquadra.
Se perderam sem bússola, sucumbiram sem o vento.

Um agora anda, outro agora assopra.

Do não si mesmo

Eu só queria dormir
entrelaçado em liberdade
com aquelas mãos
Cercam meus cabelos
apertam meus joelhos
fazem cócegas
Me traio em ser plural
reviro as gavetas, surgem
meias, completas
somos almas brancas, azuis
O sol veio clarear a chuva
molhou aqueles que sentem frio
mas quando se entrelaçam
aquecem meias almas
completas e cheias
do não si mesmo

12 maio, 2011

O que uma criança deve aprender?

" Sempre diga a ele: Tudo o que te peço é para o teu proveito, mas não tens condições de sabê-lo. A mim, o que importa que faças ou não que exijo? É só para ti mesmo que trabalhas.

Com todos esses belos discursos que agora lhe fazeis para torná-la sábia, preparais o sucesso das palavras que algum dia lhe dirá um visionário, um charlatão, um patife ou um louco qualquer para pegá-la em sua armadilha ou para fazer com que adote sua loucura.

É importante que um adulto saiba muitas coisas cuja utilidade uma criança não é capaz de entender; mas será preciso e possível uma criança aprender tudo o que é importante que um adulto saiba?"

Eu me apavoro com o quanto acreditamos em mentiras, falácias e armadilhas. As dos políticos não precisamos comentar aqui, é assunto batido, tão batido que ninguém difere um político coerente daquele que rouba, manda matar, é afastado e depois volta pro mesmo cargo, mas o "chefe" do Estado não sabe de nada. Enfim. Que não sejamos enganados por pais e professores-catequisadores que usam o discurso do "é pro teu bem" ou "tu precisas aprender isso"; pelas mídias que jorram informações carregadas de opiniões extremistas, devidamente incompletas e incoerentes.

Carl Rogers e Jean-Jacques Rousseau, separados por menos de 200 anos.

Texto de Jean-Jacques Rousseau, retirado do seu livro "Emílio ou Da Educação".

11 maio, 2011

Sem esquadra


Pensei em ser leve. Eu sou leve. Meus amigos me diziam que eu era duro e pesado. Decidi não mais ser. Preferi ser um outro, que hoje sou. Procurei em todas as perdições aquilo que nunca encontrara, mas que estava em mim. A c-alma.
Com a calma encontrei a alma. Encontrei outra alma. Ela era meu querer, minha menina, minha satisfação de cuidar. Eu era visto, desde que não necessitasse que ela se abandonasse. Nunca houve erro, houve desencontro. Eram esses desencontros que lhe doíam. Resolveu trazer bússola. Pôs no peito. Mostrou-o a ela. Ela não via bússola porque não via o peito. Comprou uma biruta, pra que talvez o vento fosse mais leve que o magnetismo do instrumento posto no peito. Ela negou o vento, começou a soprar de acordo com os seus pulmões, esqueceu-o novamente. Só restavam dois barcos que agora não formavam esquadra.
Se perderam sem bússola, sucumbiram sem o vento.

Um agora anda, outro agora assopra.

10 maio, 2011

Findar do Fel


Busco nada que não esteja no caminho
Espero nada que me faça esperar
Algum dia, em um templo
Erguerei nenhum altar

Por essas e tantas
Despeço-me do fel
Ele já foi útil
Mas hoje envenena
o que naquele dia fora mel

07 maio, 2011

A alma mais leve


Cada segundo é instante
de morte
sorte
que te levo comigo
Basta um segundo
quando tu segue junto
São dois palpitantes
saltitantes, alegres
Quando se encontram
fazem os dias escorrerem
Faz minha alma mais leve

06 maio, 2011

Do falso educador


“Um preceptor [educador] pensa mais em seus interesses do que nos de seu aluno; tenta provar que não está perdendo tempo e ganha bem o dinheiro que lhe dão; oferece-lhe um saber de fácil exibição, que se possa mostrar quando se quiser; não importa que o que lhe ensina seja útil, contanto que seja facilmente visível. Amontoa, sem escolha, sem distinção, cem coisas em sua memória. Quando se trata de examinar a criança, fazem-no desembrulhar sua mercadoria; ele a exibe, todos ficam contentes; em seguida, ele embrulha de novo o pacote e vai embora. Meu aluno não é tão rico assim, não tem pacote para desembrulhar, nada tem para mostrar, a não ser ele mesmo. Ora, uma criança, assim como um homem, não se vê num instante. Onde estão os observadores que sabem distinguir ao primeiro olhar os traços que a caracterizam? Tais pessoas existem, mas são poucas; e, dentre cem mil pais, não se encontrará nenhuma delas.”

Citação de Jean-Jacques Rousseau retirada do livro Emílio ou Da Educação, de 1762.

Não viver em vão


Preciso de algo
Preciso de alguém
Esse alguém eu sei
Está do outro lado

Joga-me na parede
Gruda-me aos teus pés
Mas leva em teu coração
Me alenta uma luz
Que não me faça viver em vão

04 maio, 2011

Resto

esses desencontros que
não acertam o ponto
é indagação e exclamação
pronto pra deixar-me
era beijo,
agora cospe minha mão
não é suficientemente
quando a gente não mente
entre teus cabelos
e coração
me deixa pra trás
na calçada
mendigando
o resto do teu amor

03 maio, 2011

Máximas próximas


Os que nos fazem mal e prejudicam tem a seguinte serventia: Parâmetro de como nós não sermos.

Todos temos uma "cruz" a carregar. São ensinamentos que precisamos, por nós mesmos, aprender.

Com cada materialista morto deveria ser enterrado ou incinerado todos seus livros. Se a vida e todas as ideias acabam com o apagar das células, que assim seja.

Quanto maior a nossa abertura aos outros e confiança na nossa intuição, menor é o número de conselhos que nos dão.

Não sou eu que quero o teu bem, não sou eu o seu mal, tu és algum sonho que não atrevo acordar.

Acreditar em coisas boas é tão difícil que nem fazendo as pessoas conseguem notar.

Ser mau é uma tática para não decepcionar.

Na vida precisamos ter o equilíbrio entre lutar por aquilo que ainda não temos/somos e largarmos aquilo que não queremos mais ter/ser.

O que não me pertence não deve aos meus pensamentos.

Opiniões, ideias e argumentos sobre o que pensas valem nada se não sabes para onde desejas ir e o que se propõe a ser, fazer e viver.

A ciência e conhecimento não tornam o homem bom nem virtuoso; a moral é que dá a direção ao conhecimento e a ciência.

Ficaria eu preso em meus delírios e diálogos de uma mente só? Creio que sim. Me sinto vivo como se alguém tocasse meu ombro, sem ter as mãos

O sentido da vida, se é que existe, é manter o corpo funcionando, suas células se dividindo, as mitocôndrias metabolizando energia?

A vida não começa e nem acaba no corpo. Se ela fosse somente corpo, viveríamos em torno do corpo e para o corpo; vivemos pra algo além.

Me parece que as "perdas" que tive na vida foram espécies de "treinamento" leves, "prévias", pra agora e o que ainda terei de suportar.

Até os zombadores tem a sua razão de viver: Testar as ideias dos sábios e o coração dos virtuosos.

Aquele que reflete e realmente busca algo tem bem menos chances de precisar coisa como orientação vocacional e horóscopo.

Do esquecer

rebuscou a solidão com o amor
fez do ronco o motor
não há mais travesseiros
risos ou ferimentos

colabora no jornal anônimo
pega sempre o mesmo ônibus
talvez seja a única desse mundo
que acha digno ser estúpido

sei que me mira
sei que me tira
sei que me risca
sei que me atira