
27 maio, 2011
Enquanto eu durmo

25 maio, 2011
Sobre o Sentido
22 maio, 2011
hão deixar
19 maio, 2011
Enquanto haver moral
18 maio, 2011
Aprender através da experiência, não dos discursos

Não gosto das explicações em forma de discurso. Os jovens prestam pouca atenção nelas e não as retêm. As coisas! As coisas! Nunca terei repetido suficientemente que damos poder demais às palavras. Com nossa educação tagarela, só criamos tagarelas.
Suponhamos que, enquanto estudo com meu aluno o curso do sol e a maneira de se orientar, de repente ele me interrompe para me perguntar para que serve tudo aquilo. Que belo discurso irei fazer-lhe! De quantas coisas aproveitarei a oportunidade para instruí-lo em resposta à sua pergunta, sobretudo se tivermos testemunhas para a nossa conversa*. Falar-lhe-ei sobre a utilidade das viagens, sobre as vantagens do comércio, sobre os produtos particulares a cada clima, sobre os costumes dos diferentes povos, sobre o emprego do calendário, sobre o cálculo do retorno das estações para a agricultura, sobre a arte da navegação, sobre a maneira de se guiar no mar seguindo exatamente a rota, quando não se sabe onde se está. A política, a história natural, a astronomia, a própria moral e direito das gentes entrarão em minha explicação, dando ao meu aluno uma grande idéia de todas essas ciências e um intenso desejo de aprendê-las. Quando tiver dito tudo, terei feito uma exibição do verdadeiro pedante, da qual não terá compreendido uma única idéia. Ele teria como antes vontade de me perguntar para que serve orientar-se, mas não ousa, temendo aborrecer-me. Prefere fingir que entendeu o que o forçaram a escutar. Assim se fazem as belas educações.
Mas o nosso Emílio, educado de uma maneira mais rústica, e ao qual demos com tanto trabalho uma concepção dura, não escutará nada disso. Quando ouvir a primeira palavra que não entender, irá embora, brincar no quarto, deixando-me a arengar sozinho. Busquemos uma solução mais grosseira; meu aparato científico não vale nada para ele.
Observávamos a posição da floresta ao norte de Montmorency quando ele me interrompeu com sua importuna pergunta: Para que serve isso? Tensa razão, disse-lhe eu, precisamos pensar bastante nisso; e, se acharmos que este trabalho não serve para nada, não voltaremos a ele, pois não nos faltam diversões úteis. Ocupamo-nos co outra coisa e não se fala mais de geografia pelo resto do dia.
No dia seguinte de manhã, proponho-lhe um passeio antes do almoço; ele não queria outra coisa; para correr, as crianças estão sempre prontas, e esta tem boas pernas. Subimos à floresta, percorremos os Champeux e nos perdemos, já não sabemos onde estamos; quando chega a hora de voltarmos, não conseguimos reencontrar o caminho. O tempo vai passando, vem o calor, estamos com fome; apressamo-nos, erramos em vão de um lado para o outro, por toda parte só encontramos bosques, pedreiras, planícies, nenhuma informação para reconhecimento. Muito acalorados, muito cansados, com muita fome, com nossas idas e vindas só conseguimos perder-nos mais. Finalmente sentamo-nos para descansar e para conversar. Emílio, que suponho educado como outra criança, não conversa, mas chora; não sabe que estamos à porta de Montmorency e que um simples matagal a esconde de nós; esse matagal, porém, é uma floresta para ele, um homem da sua altura enterra-se no mato.
Após alguns instantes de silêncio, digo-lhe com um ar inquieto: Meu caro Emílio, como faremos para sair daqui?
Emílio, muito suado e aos prantos.
Não sei. Estou cansado; estou com fome; estou com sede; não agüento mais.
Jean-Jacques
Achas que estou em melhores condições do que tu? Achas que eu deixaria de chorar, se pudesse almoçar com minhas lágrimas? Não se trata de chorar, mas de saber onde estamos. Que horas são no teu relógio?
Emílio
É meio-dia, e ainda estou em jejum.
Jean-Jacques
É verdade, é meio-dia e ainda não comi nada.
Emílio
Ah, como deves estar com fome!
Jean-Jacques
O pior é que meu almoço não virá buscar-me aqui. É meio-dia, é justamente a hora em que ontem observamos de Montmorency a posição da floresta. Se pudéssemos da mesma forma observar da floresta a posição de Montmorency!...
Emílio
É, mas ontem estávamos vendo a floresta, e daqui não vemos a cidade.
Jean-Jacques
Esse é o problema... Se pudéssmos achar a sua posição sem precisar vê-la!...
Emílio
Ó meu bom amigo!
Jean-Jacques
Não dizíamos que a floresta estava...
Emílio
Ao norte de Montmorency.
Jean-Jacques
Por conseguinte, Montmorency deve estar...
Emílio
Ao sul da floresta.
Jean-Jacques
Há um meio de achar o norte ao meio-dia.
Emílio
Sim, pela direção da sombra.
Jean-Jacques
Mas e o sul?
Emílio
O que fazer?
Jean-Jacques
O sul é o oposto do norte.
Emílio
É verdade; basta procurar o oposto da sombra. Ah! P sul é ali! O sul é ali! Com certeza Montmorency fica deste lado; vamos procurar deste lado!
Jean-Jacques
Pode ser que tenhas razão; tomemos este caminho pelo bosque.
Emílio, batendo palma e dando gritos de alegria.
Estou vendo Montmorency! Ali bem à nossa frente, bem à vista! Vamos almoçar, vamos comer, rápido; a astronomia serve para alguma coisa.
Notais que, se ele não disser essa última frase, ele a pensará. Pouco importa, contanto que não seja eu quem a diga.
Ora, podeis ter certeza de que não esquecerá por toda a vida a lição desse dia, ao passo que, se eu só lhe tivesse feito supor tudo isso em seu quarto, meu discurso teria sido esquecido no dia seguinte. Devemos falar tanto quanto possível através das ações, e só dizer aquilo que não podemos fazer.
* Muitas vezes observei que, nos doutos ensinamentos que damos às crianças, pensamos menos em nos fazer ouvir por elas do que pelos adultos presentes. Tenho Certeza disso, pois observei em mim mesmo.
Trecho de “Emílio ou Da Educação” – de Jean-Jacques Rousseau
17 maio, 2011
Outono ao lado
O que é nosso
O amor é bússola
15 maio, 2011
Antimanicomial - Um Movimento?!

A história mostra os movimentos da relação entre loucos e sociedade. Eles já habitaram leprosários, prisões, ilhas, hospitais gerais e manicômios. Dividiram espaços com leprosos, tuberculosos, criminosos e toda sorte de portadores de alguma coisa que apontasse para o adoecimento. Mas a cronologia também aponta que esses loucos já foram sábios, gurus, intermediários entre os deuses e os mortais, bruxos e até mentores de muitas comunidades. Em determinados contextos, com a evolução do pensamento e da ciência, os loucos tiveram tratamento diferente no meio onde viviam; nem sempre tratados com respeito, muitas vezes superestimados em poderes, outras esquecidos – a sociedade, a ciência, o ethos (costumes de um povo) e a religião influenciaram no “diagnóstico” daqueles que eram ajustados ou desajustados, segundo parâmetros relativamente ou hipocritamente estabelecidos.
No final dos anos 1970 surgem os primeiros movimentos críticos da reforma psiquiátrica no Brasil, tentando fazer uma reformulação do pensamento com relação ao tratamento e eticidade com relação aos desajustados ou, se preferir, portadores de sofrimento psíquico. Essa forma de pensar foi muito influenciada pelo zeitgeist da década anterior, onde surgiram os hippies, artistas como os Beatles, Bob Dylan, as feministas e diversos grupos que defendiam o fim da guerra fria, os confrontos no Vietnã, a valorização dos direitos humanos. Mas é na Itália que criam a lei 180, em 1978, sob o avanço da psiquiatria democrática; um novo modelo de prática psiquiátrica que serviu de parâmetros para novas legislações e relações entre as instituições e os loucos.
Os seres vivos, especialmente os animais, tendem a viver em movimento; seria diferente com os animais que sofrem? Agora tomamos a ordem inversa ao modelo anterior – as instituições que serviam de habitação e tratamento, muitas vezes até o findar da vida do paciente, começam a ser substituídos por novas praticas. As almas doentes começam a ser vistas com direitos e detentores de possibilidades. O espaço físico se amplia, onde tentavam conter o corpo devido ao estigma da periculosidade, busca ajudar o paciente a ter maior liberdade e condições de lidar com essa liberdade, com seus direitos a serviços de saúde, atenção e reinclusão social. Segundo creio, os loucos nunca estiverem fora da sociedade, mas sua existência fora negada nessa sociedade; o que não é sinônimo que não estivessem inseridos. Os loucos, como tantos outros grupos com suas necessidades, hoje tem muitas dificuldades de acesso aos bens básicos como educação, saúde, segurança e principalmente auto-estima.
Além de conhecer a história do movimento antimanicomial, precisamos conhecer o que está sendo feito hoje, onde a loucura nasce e como devemos agir para evoluir. Evoluir, nesse caso, é poder ajudar o outro de forma ética e justa. A loucura surge na educação, na relação familiar, baseada em um ethos, na relação de pais-cuidadores que agem segundo seus valores morais e seus filhos. O dilema está entre os indivíduos e o vazio ético que vivem, levando para a sociedade esse vazio e trazendo para casa toneladas da podridão social. Nos relacionamos com negligência, desrespeito, ignorando que na nossa frente existe alguém e esse outro tem suas necessidades e direitos. É assim que surge a loucura, não de um lugar distante, mágico, em alguma Disneylândia, ou dentro dos manicômios e clínicas psiquiátricas, mas nos cômodos das residências civis, na cozinha, nos quartos e nas salas. Só procura atendimento médico quem está doente ou quer prevenir a doença.
Vivemos uma nova loucura, não a psíquica, neurológica, médica; a loucura moral, antecessora da loucura psíquica. Vivemos uma loucura noogênica, aquela loucura do vazio, do vácuo existencial.
Agora precisamos trabalhar para além dos residenciais terapêuticos, dos Serviços de Atenção Psicossocial, dos ambulatórios hospitalares e tratamentos psicofarmacêuticos; a loucura vem de casa, deve ser constata na escola, tratada desde cedo. Os pais, como os professores (humanos, tal como a criança) necessitam de cuidados. Ninguém está isolado na sociedade, por maior que seja a distância física e psíquica (como viviam nos manicômios), não estavam ali por acaso, existe uma causa proveniente da sociedade e a sua visão ética-política sobre a saúde e doença mental. É necessário abandonar o conceito rígido de “família estruturada” baseada em pai e mãe “saudáveis”. O senso comum, neste caso, não mente: em quase todos os grupos familiares temos relativos graus de loucura.
O desafio é desenvolver o pensamento moral na escola, que esse pensamento surja de dentro para fora, não em novas catequeses sob modelos políticos, ideológicos e/ou partidários. Colégios não sejam os novos manicômios, onde supostamente aprendem, mas que na realidade adoecem e reproduzem a doença das instituições do Estado. Essas crianças sejam cuidadas, suas famílias vistas, o vazio moral e existencial seja substituído pela liberdade de pensamento, responsabilidade sobre ser quem se é e sobre os seus presentes e futuros atos; não se tornem os antigos “alienados” mentais tampouco os novos viciados em alguma droga que diariamente surge.
Nesse 18 de maio, dia da Luta Antimanicomial, convido os leitores a pensar, reformular e abrir as nossas portas manicomiais do Estado. Os loucos talvez não sejam os “alienados” mentais, “loucos de pedra”, e o esquizofrênico da novela; a loucura moral está votando no político que de antemão sabemos que lesou os que confiaram a ele seus direitos básicos; a loucura moral do professor que está mais interessado no conteúdo que exercitará somente a memória, não as atitudes da criança; a loucura moral está no extremo da negligência dos pais quanto ao cuidado ou no excesso de poder que exerce sobre seu futuro “bandido”, “viciado” e “louco”.
Tenhamos confiança que existe um sentido para viver, que esse por que viver se reflita no social ajudando para que talvez surjam novas formas de relação que não sejam loucas moralmente ou psiquicamente.
“Não é demonstração de saúde ser bem ajustado a uma
sociedade profundamente doente”
Jiddu Krishnamurti
Mais artigos, ensaios e outros escritos em: www.pelaalma.blogspot.com
Sugestões de leitura:
“História da Loucura” – Michel Foucault
“Em Busca de Sentido – Um psicólogo no campo de concentração” – Viktor Frankl
“Liberdade para Aprender” – Carl Rogers
“Emílio ou Da Educação” – Jean-Jacques Rousseau
Diferentes
Do não si mesmo
12 maio, 2011
O que uma criança deve aprender?
11 maio, 2011
Sem esquadra
10 maio, 2011
Findar do Fel
07 maio, 2011
A alma mais leve
06 maio, 2011
Do falso educador

“Um preceptor [educador] pensa mais em seus interesses do que nos de seu aluno; tenta provar que não está perdendo tempo e ganha bem o dinheiro que lhe dão; oferece-lhe um saber de fácil exibição, que se possa mostrar quando se quiser; não importa que o que lhe ensina seja útil, contanto que seja facilmente visível. Amontoa, sem escolha, sem distinção, cem coisas em sua memória. Quando se trata de examinar a criança, fazem-no desembrulhar sua mercadoria; ele a exibe, todos ficam contentes; em seguida, ele embrulha de novo o pacote e vai embora. Meu aluno não é tão rico assim, não tem pacote para desembrulhar, nada tem para mostrar, a não ser ele mesmo. Ora, uma criança, assim como um homem, não se vê num instante. Onde estão os observadores que sabem distinguir ao primeiro olhar os traços que a caracterizam? Tais pessoas existem, mas são poucas; e, dentre cem mil pais, não se encontrará nenhuma delas.”
Citação de Jean-Jacques Rousseau retirada do livro Emílio ou Da Educação, de 1762.
Não viver em vão
04 maio, 2011
Resto
03 maio, 2011
Máximas próximas

Os que nos fazem mal e prejudicam tem a seguinte serventia: Parâmetro de como nós não sermos.
Todos temos uma "cruz" a carregar. São ensinamentos que precisamos, por nós mesmos, aprender.
Com cada materialista morto deveria ser enterrado ou incinerado todos seus livros. Se a vida e todas as ideias acabam com o apagar das células, que assim seja.
Quanto maior a nossa abertura aos outros e confiança na nossa intuição, menor é o número de conselhos que nos dão.
Não sou eu que quero o teu bem, não sou eu o seu mal, tu és algum sonho que não atrevo acordar.
Acreditar em coisas boas é tão difícil que nem fazendo as pessoas conseguem notar.
Ser mau é uma tática para não decepcionar.
Na vida precisamos ter o equilíbrio entre lutar por aquilo que ainda não temos/somos e largarmos aquilo que não queremos mais ter/ser.
O que não me pertence não deve aos meus pensamentos.
Opiniões, ideias e argumentos sobre o que pensas valem nada se não sabes para onde desejas ir e o que se propõe a ser, fazer e viver.
A ciência e conhecimento não tornam o homem bom nem virtuoso; a moral é que dá a direção ao conhecimento e a ciência.
Ficaria eu preso em meus delírios e diálogos de uma mente só? Creio que sim. Me sinto vivo como se alguém tocasse meu ombro, sem ter as mãos
O sentido da vida, se é que existe, é manter o corpo funcionando, suas células se dividindo, as mitocôndrias metabolizando energia?
A vida não começa e nem acaba no corpo. Se ela fosse somente corpo, viveríamos em torno do corpo e para o corpo; vivemos pra algo além.
Me parece que as "perdas" que tive na vida foram espécies de "treinamento" leves, "prévias", pra agora e o que ainda terei de suportar.
Até os zombadores tem a sua razão de viver: Testar as ideias dos sábios e o coração dos virtuosos.
Aquele que reflete e realmente busca algo tem bem menos chances de precisar coisa como orientação vocacional e horóscopo.

